Se considerarmos as dificuldades que há na existência para a reabilitação do culpado, por maiores que sejam o seu arrependimento e as reprovações de que se torna objeto, devemos louvar a Deus por ter lançado um véu sobre o passado. Mesmo que fosse condenado a tempo ou absolvido, os antecedentes de Latour fariam com que fosse rejeitado pela sociedade. Quem o acolheria na intimidade, apesar do seu arrependimento? Entretanto, os sentimentos que ora manifesta como Espírito nos dão a esperança de que venha a ser na próxima encarnação um homem honesto e estimado. Suponhamos que soubessem que esse homem honesto fora Latour, e a reprovação continuaria a persegui-lo. Esse véu sobre o passado é que lhe franqueia a porta da reabilitação, porque pode sem receio e sem pudor ombrear-se com os mais honestos. Quantos Espíritos não desejariam poder apagar da memória dos homens certas fases da própria vida?
Qual a doutrina que melhor se concilia com a bondade e a Justiça de Deus? Ademais, esta doutrina não é uma teoria, mas o resultado de observações. Não foram os espíritas que a imaginaram, porém eles viram e observaram as diferentes situações em que muitos Espíritos se apresentam; procuraram explicá-las, e dessa explicação saiu então a Doutrina Espírita. Se eles a aceitaram, é porque ela resulta dos fatos, e ainda por lhes parecer mais racional do que todas as emitidas até hoje sobre o futuro da alma.
Não se pode recusar a estas comunicações um grande fundo moral. O Espírito poderia ter sido auxiliado nesses raciocínios e, sobretudo, na escolha das suas expressões, por outros mais adiantados; mas o fato é que estes apenas influem na forma, e não na essência, e jamais fazem que o Espírito inferior esteja em contradição consigo mesmo. Poderiam, assim, ter poetizado em Latour a forma do arrependimento, mas não lhe insinuariam tal arrependimento contra sua vontade, porque o Espírito tem o seu livre-arbítrio. Em Latour vislumbraram o germe dos bons sentimentos e por isso o auxiliaram a exprimir-se, contribuindo assim para desenvolvê-lo e implorando, ao mesmo tempo, comiseração em seu favor.
Que há de mais digno, mais moralizador, capaz de impressionar mais vivamente, do que o espetáculo deste grande criminoso, censurando-se a si mesmo o desespero e os remorsos? Desse criminoso que, perseguido e torturado pelo olhar incessante de suas vítimas, eleva a Deus o pensamento implorando misericórdia? Não será isso um exemplo salutar para os culpados? Compreende-se a natureza de suas angústias; embora simples, elas são racionais, terríveis, desprovidas de encenações fantasmagóricas.
Poder-se-ia estranhar tão grande transformação num homem como Latour... Mas por que havia de ser inacessível ao arrependimento? Por que não possuir também ele a sua corda sensível? O pecador seria, pois, votado ao mal eternamente? Não lhe chegaria, por fim, um momento em que a luz se fizesse em sua alma? Era justamente essa hora que chegara para Latour; e ali está precisamente o lado moral dos seus ditados; é a compreensão que ele tem do seu estado, são os seus pesares, os seus planos de reparação, que tornam tais mensagens eminentemente instrutivas. Que haveria de extraordinário se Latour confessasse um arrependimento sincero antes de morrer, se dissesse antes da morte o que veio dizer depois? Não há, quanto a isso, inúmeros exemplos? Aos olhos de muita gente, uma regeneração antes da morte teria passado por fraqueza; mas essa voz de além-túmulo é a revelação daquilo mesmo que os aguarda. Latour está absolutamente com a verdade quando afirma que o seu exemplo é mais eficaz para conduzir os culpados ao bom caminho do que a perspectiva das chamas do inferno, e até da guilhotina.
Por que não lhes ministrar no cárcere esses sentimentos? Isso levaria muitos criminosos a refletirem com sensatez, do que aliás já temos alguns exemplos. Mas como crer na eficácia das palavras de um morto, quando se julga que tudo termina com a morte? Entretanto, dia virá em que será conhecida esta verdade: os mortos podem vir instruir os vivos.
Há várias outras instruções importantes a tirar dessas comunicações; uma delas vem confirmar o princípio de eterna Justiça, segundo o qual não basta que o culpado se arrependa para fazer jus à classe dos eleitos. O arrependimento é o primeiro passo para a reabilitação que atrai a misericórdia divina; é o prelúdio do perdão, o alívio dos sofrimentos. Deus, porém, não absolve incondicionalmente; cumpre ao culpado expiar e, sobretudo, reparar suas faltas. Assim o entende Latour, e para tanto se predispõe. Se, por outro lado, compararmos este criminoso ao de Castelnaudary, veremos ainda uma diferença nos castigos. Neste último o arrependimento foi tardio e, por conseguinte, mais longa a pena. Além disso, essa pena era quase material, ao passo que para Latour o sofrimento foi antes moral, porque, como acima dissemos, havia grande diferença intelectual entre eles. Ao outro, impunha-se alguma coisa que pudesse ferir-lhe os sentidos obliterados; mas é preciso notar que as penas morais não serão menos pungentes para quantos estejam em condições de compreendê-las. Podemos deduzir tudo isso dos clamores do próprio Latour, que não são de cólera, mas antes a expressão dos remorsos, seguidos de perto pelo arrependimento e pelo desejo de reparação, com vistas ao seu progresso.