Capítulo 4
Sistema da alma material – Consiste apenas numa opinião particular sobre a natureza íntima da alma. Segundo esta opinião, a alma e o perispírito não seriam distintos uma do outro, ou, melhor, o perispírito seria a própria alma, a se depurar gradualmente por meio das transmigrações sucessivas, como o álcool se depura por meio de diversas destilações. A Doutrina Espírita, entretanto, considera o perispírito como o envoltório fluídico da alma ou do Espírito. Sendo matéria o perispírito, embora muito etérea, a alma seria de uma natureza material mais ou menos essencial, de acordo com o grau de sua purificação. Este sistema não invalida nenhum dos princípios fundamentais da Doutrina Espírita, visto nada alterar com relação ao destino da alma; as condições de sua felicidade futura são as mesmas. Como a alma e o perispírito formam um todo, sob a denominação de Espírito, a exemplo da semente e da polpa, que também formam um todo sob o nome de fruto, toda a questão se resume em considerar o todo como homogêneo, em vez de considerá-lo formado de duas partes distintas. Como se vê, tal opinião não leva a consequência alguma e, se dela nos ocupamos, foi porque encontramos pessoas inclinadas a ver uma nova escola no que não passa, afinal, de simples interpretação de palavras. Semelhante modo de ver, aliás muito restrito, mesmo que se achasse mais generalizado, não constituiria uma cisão entre os espíritas, do mesmo modo que as duas teorias da emissão e das ondulações da luz não dividem os físicos. Os que quisessem formar grupo à parte, por uma questão tão pueril, provariam, só com isso, que ligam mais importância ao acessório do que ao principal e que se acham compelidos à desunião por Espíritos que não podem ser bons, visto que os Espíritos bons jamais insuflam a acrimônia e a cizânia. É por isso que conclamamos todos os verdadeiros espíritas a se manterem em guarda contra tais sugestões e a não darem a certos pormenores mais importância do que merecem. O essencial é o fundo. Não obstante, sentimo-nos na obrigação de dizer algumas palavras acerca dos fundamentos em que repousa a opinião dos que consideram a alma e o perispírito como coisas distintas. Ela se baseia no ensino dos Espíritos, que nunca divergem a esse respeito. Referimo-nos aos Espíritos esclarecidos, porquanto, entre os Espíritos em geral, há uma multidão que não sabe mais e até sabe menos do que os homens, ao passo que a teoria contrária é de concepção humana. Não inventamos, nem imaginamos o perispírito para explicar os fenômenos. Sua existência nos foi revelada pelos Espíritos e a experiência no-la confirmou (O livro dos espíritos, questão 93). Apoia- se também no estudo das sensações dos Espíritos (O livro dos espíritos, questão 257) e, sobretudo, no fenômeno das aparições tangíveis que, segundo outra opinião, implicaria a solidificação e a desagregação das partes constitutivas da alma e, por conseguinte, a sua desorganização. Além disso, seria preciso admitir-se que esta matéria, que pode ser percebida pelos nossos sentidos, fosse o próprio princípio inteligente, o que não nos parece mais racional do que confundir o corpo com a alma ou a roupa com o corpo. Quanto à natureza íntima da alma, nada sabemos. Quando se diz que a alma é imaterial, deve-se entendê-lo em sentido relativo, não em sentido absoluto, visto que a imaterialidade absoluta seria o nada. Ora, a alma, o Espírito, é alguma coisa. Isto equivale a dizer que sua essência é de tal modo superior que não apresenta qualquer analogia com o que chamamos matéria, de forma que, para nós, ela é imaterial (O livro dos espíritos, questões 23 e 82).
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Parte Primeira
Nome do Capítulo Sistemas
Item 50