Este aspecto foi percebido com extrema acuidade por Frederick W. Myers que, em sua obra acerca da sobrevivência humana, Human personality and its survival after codily death, tem isto a dizer: "O gênio mais completo seria, assim, a expressão da autopossessão mais completa, da ocupação e comando do organismo todo pelos elementos mais profundos do eu, que atuam com o apoio de um conhecimento mais perfeito e através de canais de comunicação mais seguros." (Myers, Frederick W. M., 1920).
Páginas adiante, já na conclusão, reitera ele essa interessantíssima observação ao declarar que: "O gênio, como dissemos, resulta de uma espécie de clarividência exaltada, mas não desenvolvida. A invasão subliminar que inspira o poeta ou o músico proporciona-lhe uma percepção profunda, mas vaga, desse mundo invisível, no qual o vidente ou médium percorre com a visão mais limitada, porém mais precisa". (Idem).
Entendia, portanto, o eminente pesquisador britânico que a genialidade se torna manifesta quando o espírito encarnado consegue vencer e dominar o organismo a ponto de fazê-lo dócil instrumento da experiência e saber de que dispõe nas amplitudes da sua memória integral.
Não, leitor, não estamos fugindo ao tema deste módulo, ou seja, o do controle.
Estamos falando do espírito encarnado que assume o controle do seu corpo, não apenas no sentido de mantê-lo em bom funcionamento de rotina, mas para expressar- se através dele, como o faria um médium encarnado. Para que utilizar um médium, se ele dispõe de seu próprio corpo e sabe como utilizá-lo adequadamente?
Enfim, são amplas as especulações, mas já é tempo de colocarmos um ponto final antes que o capítulo vire um novo livro por si mesmo porque o autor perdeu, sobre o assunto, o controle que deveria ter mantido.
13 - ASPECTOS ESPECÍFICOS DE INTERCÂMBIO
Tivemos oportunidade de examinar alhures os comentários dos espíritos incumbidos de discutir, juntamente com Kardec, os problemas da comunicação entre encarnados e desencarnados. O confronto com depoimentos de outros espíritos - que examinaremos a seguir - nos dá a exata medida da coerência e universalidade dos ensinamentos provindos do mundo espiritual, sempre que a fonte é boa e confiável.
Começaremos com Silver Birch, o sábio amigo espiritual do jornalista e médium inglês Maurice Barbanell. Recolho suas observações do excelente livrinho Glidance from Silver Birch, organizado por Anne Dooley, no qual o capítulo sexto - Problems of communication - é de nosso especial interesse aqui.
Referindo-se ao médium, diz o espírito: "Você tem de vocalizar o que começa como imagem, pensamento ou idéia, na mente do comunicante. Com o médium de transe (psicofônico), o controle nunca é cem por cento eficaz. O instrumento é um ser humano e o controle varia conforme o guia é bem-sucedido, parcialmente sucedido ou falho na sua tentativa de se mesclar com a aura do médium. Enquanto isso ocorre, o médium deve transmitir, se possível, a imagem, o pensamento, o quadro ou a idéia que recebe da mente do comunicante. O médium pode estar cansado, enfermo, desarmonizado, de mau-humor, faminto, ou comeu, bebeu e fumou demais: mil e uma coisas. Tudo isso afeta a maneira pela qual o guia e o seu instrumento devem ajustar-se." (Dooley, Anne. 1966).
É como se estivéssemos a ler, em outras palavras, as mesmas observações de responsabilidade dos espíritos ligados à Codificação. Vejam só: "Pode haver idéias, subconscientes na mente do médium, idéias fortes, dominantes, que insistem em lançar seus tentáculos, porque estão tentando encontrar sua expressão final. As vezes, o único meio de se livrar delas, é expressá-las e, em seguida, anulá-las. Eis porque, às vezes, vocês percebem que idéias do médium foram expostas pelo espírito". (Kardec Allan.1975).
Além disso, o processo da manifestação, em si mesmo, representa considerável esforço da parte do espírito, trabalho árduo e, muitas vezes, inglório que ele aceita exclusivamente por amor aos que se acham na carne. Isso não é fácil, segundo Silver Birch: "Eis porque somente aqueles que amam vocês estão em condições de realizar esse esforço."
Descobrimos no livro do dr. Fodor - An encyclopaedia of psychic science - observação praticamente idêntica, apenas expressa em palavras diferente pelo prof. Hodgson, e se refere especificamente ao fenômeno da psicografia mediúnica. Vejam: "Os pensamentos que passam através da consciência que controla a mão, tendem a ser escritos e, por isso, uma das dificuldades do processo consiste em evitar a expressão escrita de pensamentos que não são para serem incluídos na comunicação.
(Fodor Nandor 1969).
Não basta, porém, uma boa sintonização entre o espmto e o médium, de vez que novas dificuldades são encontradas no que o espírito caracteriza como "processo de transmitir o pensamento, a imagem, ou o símbolo - pois não usamos palavras em nosso mundo".
Prossegue ele: "Não pense, pelo fato de você me ouvir falar com facilidade através deste instrumento, que isto seja fácil. Mesmo eu tenho de usar uma verdadeira multidão de 'fios' para manter certo controle sobre o instrumento. A qualquer momento, qualquer desses fios pode se romper e lá se vai o meu poder de controle". (Idem) Muitos são os fatores que interferem no processo, em prejuízo normal da comunicação.
Por isso tudo, escreveu Julia, através do jornalista William Stead: "Quando experimento, eu mesma, as extraordinárias dificuldades em enviar mensagens deste lado, fico admirada, não do tão pouco que conseguimos em nossas pesquisas, quando eu estava aí, com você, mas que tenhamos conseguido tanto. Isso, porque, a barreira está em vocês, nas condições que vocês nos oferecem.
Ao prof. Hyslop, eminente pesquisador britânico, dizia seu 'falecido' pai, através da médium: "Você me interrompe. Tenho de ir-me embora porque minhas forças começam a esgotar-se e não sei mais o que estou fazendo. James, estou ficando mais fraco.
Espere até que eu volte". (Idem) E, no entanto, tais comunicações vinham através da sra. Piper, médium experimentada, segura e de muitos recursos.
Ao que se depreende desses e de inúmeros outros depoimentos, o espírito manifestante - a não ser os mais experimentados e de melhor nível evolutivo - não consegue evitar que a sua própria mente fique um pouco toldada, ante o impacto causado pelo contato com a instrumentação orgânica do médium.
O próprio Myers-espírito, a despeito da sua longa experiência com fenômenos psíquicos, quando ainda encarnado, e da importância de sua obra, queixa-se das dificuldades que experimentava ao ligar-se a algum médium - e os teve excelentes, à sua disposição.
Manifestando-se, certa vez, por psicografia através da sra. Holland, escreveu isto: "Algumas destas coisas estão chegando aí, a vocês? Ou a alguém? Ou estou apenas me lamentando como o vento - sem palavras e sem ouvido?"
Com Geraldine Cummins, Myers teve oportunidade de discorrer sobre suas experiências pessoais como espírito desencarnado, no processo da comunicação, depois de ter pesquisado o assunto durante tantos anos como encarnado.
Quando nós, seres desencarnados, desejamos nos comunicar através de algum sensitivo, mergulhamos num estado onírico ou subjetivo. Dois níveis diferentes, nesse estado, são importantes para nós. Se estamos apenas em transe ligeiro, desligamo-nos das lembranças dos fatos concretos de nossa vida na carne. Se, porém, nos comunicamos diretamente, através do médium, apesar de conservarmos a nossa personalidade e nosso modo de falar, ficamos, com freqüência, incapazes de transmitir, por meio da escrita ou da voz do médium, muitos fatos sobre a nossa existência passada na Terra, algumas vezes até mesmo o nosso nome. (Cummins. Geraldine.
1955).
Interessantíssimas, tais observações. Por elas, ficamos sabendo que para um espírito também há uma espécie de transe, um estado de sonho, no qual algumas de suas faculdades ficam como que meio 'apagadas', a ponto de o espírito envolver-se até numa crise de identidade pessoal, como observa o prof. Hyslop.
Reportando-nos ao caso de sr. Drake, anteriormente comentado, confrontemos com ele este outro depoimento de Myers, ainda no livro da sra. Cummins.
Escreve o espírito: É verdade que nos comunicamos por meio de quadros ou imagens, sinais que a mente do sensitivo capta, Algumas vezes podemos transmitir, por meio de um sinal ou de um símbolo, um nome ou palavra desconhecidos do médium. (Idem).
O problema do mecanismo da comunicação, contudo, fica abordado de maneira mais específica e extensa, com o próprio Myers-espírito, por Elizabeth Gibbes, a fiel companheira de trabalhos mediúnicos de Geraldine Cummins, O diálogo figura também em The road to immortality. A sra. Gibbes, pelo que depreendo do texto, havia testemunhado algumas sessões em que Myers se comunicava por outra competente médium, a sra. Osborne Leonard, que tinha como control, segundo a terminologia inglesa - equivalente ao nosso guia - um espírito por nome Feda. Vejamos o diálogo: Pergunta Gibbes a Myers: "Quando você se comunica por intermédio da sra. Leonard e Feda, parece que você permanece na sua própria mente, por assim dizer, transmitindo seus pensamentos para Feda interpretar. Quando a comunicação se faz por psicografia, parece que você controla diretamente a pessoa que escreve. Você quer explicar até que ponto você se lembra da sua vida terrena. nessas duas condições?
- Ah! Isso é muito interessante ! Devo explicar os métodos. Quando permaneço em minha própria mente, como se diz, realmente tenho acesso as minhas lembranças.
Agora, tais lembranças talvez parecessem a você uma esgarçada nuvem, se você dispusesse de recursos suficientemente fortes para observá-las. Mas Feda, que está em contato com um ser humano, pode, se nos esforçarmos por concentrar-nos numa faixa específica de lembranças, ter o conteúdo de tais lembranças. Ela capta o que ali encontra e o transmite à mente do médium, através da qual as lembranças encontram sua expressão.