Observações – Se há fatos espíritas que, até certo ponto, poderiam ser atribuídos à imaginação, como o das visões, por exemplo, neste já não seria o mesmo. A Sra. Maurel não sonhou que tivesse quebrado o braço, como também não sonharam as diversas pessoas que acompanharam o tratamento; as dores que sentia não eram alucinação; sua cura em oito dias não é uma ilusão, pois se serve do seu braço. O fato brutal está aí, ante o qual devemos necessariamente nos inclinar. Confunde a Ciência, é verdade, porque, no estado atual dos conhecimentos, parece impossível. Mas não foi sempre assim que se revelaram novas leis?
É a rapidez da cura que vos espanta? A Medicina, contudo, não descobriu inúmeros agentes mais ativos do que os que conhecia para apressar certas curas? Nos últimos tempos não achou os meios de cicatrizar certas feridas quase instantaneamente? Não encontrou o de ativar a vegetação e a frutificação? Por que não teria um para ativar a soldadura dos ossos? Então conheceis todos os agentes da Natureza e Deus não tem mais segredos para vós? Não há mais lógica em negar hoje a possibilidade de uma cura rápida do que havia, no século passado, de negar a possibilidade de fazer em algumas horas o caminho que se gastavam dez dias para percorrer.
Direis que este meio não está na farmacopéia, e é verdade; mas antes que a vacina nele fosse inscrita, seu inventor não foi tratado como louco? Os remédios homeopáticos também lá não se acham, o que não impede que os médicos homeopatas se encontrem em toda parte e curem. Aliás, como aqui não se trata de uma preparação farmacêutica, é mais que provável que esse meio de cura não figure por muito tempo na ciência oficial.
Mas, dirão, se os médicos vêm exercer sua arte depois de mortos, vão fazer concorrência aos médicos vivos; é bem possível; entretanto, que se tranqüilizem estes últimos; se eles lhes arrancam algumas práticas, não é para os suplantar, mas para lhes provar que não estão absolutamente mortos, e lhes oferecer o concurso desinteressado aos que se dignarem em aceitá-lo. Para melhor fazê-los compreender, mostram-lhes que, em certas circunstâncias, pode-se passar sem eles. Sempre houve médicos e os haverá sempre; apenas os que aproveitarem as novidades que lhes trouxerem os desencarnados terão uma grande vantagem sobre os que ficarem na retaguarda. Os Espíritos vêm ajudar o desenvolvimento da ciência humana, e não suprimi-la.
Na cura da Sra. Maurel, um fato que talvez surpreenda ainda mais que a rapidez da soldadura dos ossos, é o movimento do braço fraturado, que parece contrariar todas as leis conhecidas da dinâmica e da gravidade. Contrário ou não, o fato aí está; desde que existe, tem uma causa; desde que se repete, está submetido a uma lei. Ora, é essa lei que o Espiritismo nos vem dar a conhecer pelas propriedades dos fluidos perispirituais. Aquele braço, submetido apenas às leis da gravidade, não poderia erguer-se; imaginai-o, porém, mergulhado num líquido de densidade muito maior que a do ar; fraturado como está, sustentado por esse líquido que lhe diminui o peso, aí poderá mover-se sem dificuldade e até erguer-se sem o menor esforço. É assim que num banho de imersão, o braço, que parece muito pesado fora d’água, parece muito leve dentro dela. Substituí o líquido por um fluido que goze das mesmas propriedades e tereis o que se passa no caso presente, fenômeno que repousa sobre o mesmo princípio que o das mesas e das pessoas que se mantêm no espaço sem ponto de apoio. Esse fluido é o fluido perispiritual, que o Espírito dirige à vontade, e cujas propriedades modifica pela simples ação da vontade. Na circunstância presente, deve-se, pois, imaginar o braço da Sra.
Maurel mergulhado num meio fluídico que produz o efeito do ar sobre os balões.
A respeito, alguém perguntava se, na cura dessa fratura, o Espírito Dr. Demeure teria agido com ou sem o concurso da eletricidade e do calor.
A isto respondemos que a cura foi produzida, neste como em todos os casos de cura, pela magnetização espiritual, pela ação do fluido emanado do Espírito; que esse fluido, não obstante etéreo, não deixa de ser matéria; que pela corrente que lhe imprime, o Espírito pode com ele impregnar e saturar todas as moléculas da parte doente; que pode modificar suas propriedades, como o magnetizador modifica as da água e lhe dá uma virtude curativa apropriada às necessidades; que a energia da corrente está na razão do número, da qualidade e da homogeneidade dos elementos que compõem a corrente das pessoas chamadas a fornecer seu contingente fluídico. Essa corrente provavelmente ativa a secreção que deve produzir a soldadura dos ossos, assim produzindo uma cura mais rápida do que quando entregue a si mesma.
Agora a eletricidade e o calor desempenham um papel nesse fenômeno? Isto é tanto mais provável quanto o Espírito não curou por milagre, mas por uma aplicação mais judiciosa das leis da Natureza, em virtude de sua clarividência. Se, como a Ciência é levada a admitir, a eletricidade e o calor não são fluidos especiais, mas modificações ou propriedades de um fluido elementar universal, devem fazer parte dos elementos constitutivos do fluido perispiritual. Sua ação, no caso presente, está, pois, implicitamente compreendida, absolutamente como quando se bebe vinho, necessariamente se bebe água e álcool.