Depois de idéias como as que encerram as passagens precitadas, nós nos surpreendemos de encontrar uma doutrina como esta, que faz da felicidade perfeita uma felicidade egoísta. O encanto da Doutrina Espírita, o que dela faz uma suprema consolação, é precisamente a idéia da perpetuidade das afeições, depurando-se e estreitando-se à medida que o Espírito se depura e se eleva. Aqui, ao contrário, quando o Espírito é perfeito, esquece aqueles a quem amou, para pensar apenas em si; está morto para qualquer outro sentimento senão o de sua felicidade; a perfeição lhe tiraria a possibilidade, o desejo mesmo de vir consolar os que ele deixa na aflição. Forçoso é convir que isto seria uma triste perfeição ou, melhor dizendo, seria uma imperfeição. A felicidade eterna, assim concebida, quase não seria mais invejável que a da perpétua contemplação, da qual a reclusão claustral nos dá a imagem pela morte antecipada das mais santas afeições da família. Se assim fosse, uma mãe estaria reduzida a temer, em vez de desejar, a completa depuração dos seres que lhe são mais caros. Jamais a generalidade dos Espíritos ensinou coisa semelhante; dir-se-ia um ajuste entre o Espiritismo e a crença vulgar. Mas esse ajuste não é feliz, porquanto, não satisfazendo às aspirações íntimas da alma, não tem nenhuma chance de prevalecer na opinião.
Quando o autor diz que não acredita nas existências anteriores, mas que está certo de que, depois da morte, começamos uma série de novas existências, não se deu conta de que cometia uma contradição flagrante. Se admite a pluralidade das existências posteriores, como coisa lógica e necessária ao progresso, em que se baseia para não admitir as existências anteriores? Não diz como explica de maneira conforme à justiça de Deus, a desigualdade inata, intelectual e moral, que existe entre os homens. Se esta existência for a primeira, e se todos saíram do nada, cai-se na doutrina absurda, inconciliável com a soberana justiça, de um Deus parcial, que favorece algumas de suas criaturas, criando almas de todas as qualidades. Poder-se-ia igualmente aí ver um ajustamento com as idéias novas, mas que não é mais feliz que a precedente.
Finalmente, nós nos admiramos de ver Fernanda, Espírito adiantado, sustentar esta proposição de um outro tempo: “Laura tornou-se mãe; Deus teve piedade dela e chamou a si esta criança. Ela a vem rever por vezes. Está triste, porque, tendo morrido sem batismo, jamais gozará da contemplação divina.”
Assim, eis um Espírito que Deus chama a si, e que está para sempre infeliz e privado da contemplação de Deus, porque não recebeu o batismo, quando dele não dependia recebê-lo, e que a falta é do próprio Deus, que o chamou muito cedo. São essas doutrinas que fizeram tantos incrédulos, enganando-se os que esperam fazê-las passar por idéias espíritas, que fincam raízes; aceitar-se-ão das idéias espíritas somente o que for racional e sancionado pela universalidade do ensino dos Espíritos. Se aí ainda há acordo, ele é desajeitado. Damos como certo que em mil centros espíritas onde as proposições que acabamos de criticar forem submetidas aos Espíritos, haverá novecentos e noventa onde elas serão resolvidas em sentido contrário.
É a universalidade do ensino, sancionada, ademais, pela lógica, que fez e que completará a Doutrina Espírita. Nessa universalidade do ensino dado em todos os pontos do globo, por Espíritos diferentes, e em centros completamente estranhos uns aos outros, e que não sofrem qualquer pressão comum, esta doutrina colhe uma força contra a qual em vão lutarão as opiniões individuais, seja dos Espíritos, seja dos homens. A aliança que se pretendesse estabelecer das idéias espíritas com idéias contraditórias, não pode ser senão efêmera e localizada. As opiniões individuais podem congregar alguns indivíduos, mas, forçosamente circunscritas, não podem congregar a maioria, a menos que tenha a sanção dessa maioria. Repelidos pelo maior número, não têm vitalidade e se extinguem com seus representantes.
Isto é resultado de um cálculo exclusivamente matemático. Se, em 1.000 centros, houver 990 onde se ensina da mesma maneira, e dez de modo contrário, é evidente que a opinião dominante será a de 990 em 1.000, isto é, a quase unanimidade.
Pois bem! estamos certos de atribuir uma parte muito larga às idéias divergentes, levando-as a um centésimo. Jamais formulando um princípio antes de estar assegurado do assentimento geral, estamos sempre de acordo com a opinião da maioria.
O Espiritismo está hoje de posse de uma soma de verdades de tal modo demonstradas pela experiência, que ao mesmo tempo satisfazem a razão tão completamente, que passaram a artigos de fé na opinião da imensa maioria dos adeptos.
Ora, pôr-se em aberta hostilidade com esta maioria, chocar suas aspirações e suas mais caras convicções é preparar-se um revés inevitável. Tal é a causa do insucesso de certas publicações.
Mas, dirão, então é proibido a quem não compartilha as idéias da maioria, publicar as suas opiniões? Certamente, não; é mesmo útil que o faça. Mas, nesse caso, deve fazê-lo com seu próprio risco e perigo, e não contar com o apoio moral e material daqueles cujas crenças querem atacar com furor.
Voltando a Fernanda, os pontos de doutrina que combatemos parecem ser a opinião pessoal do autor, que não sentiu o lado fraco. Reportando-nos à sua obra, início de carreira de um jovem, diz-nos ele que ao escrever essa novela apenas tinha um conhecimento superficial da Doutrina Espírita e que, sem dúvida, nela encontraríamos várias coisas a censurar, sobre as quais pedia a nossa opinião; que, mais esclarecido hoje, há princípios que formularia de outro modo. Cumprimentando-o por sua franqueza e modéstia, informamos a ele que, se houvesse lugar para o refutar, fá-lo-íamos na Revista, para instrução de todos.
À exceção dos pontos que acabamos de citar, não há nenhum que a Doutrina Espírita não possa aceitar.
Cumprimentamos o autor pelo ponto de vista moral e filosófico em que se colocou, e consideramos seu trabalho como eminentemente útil à difusão da idéia, porque a faz encarar sob sua verdadeira luz, que é o ponto de vista sério. (Vide no número precedente a poesia do mesmo autor, intitulada: Aos Espíritos protetores).
Simonet