Os que atacam o Espiritismo em nome do maravilhoso se apoiam geralmente no princípio materialista, uma vez que, negando qualquer efeito extramaterial, negam, automaticamente, a existência da alma. Sondai-lhes, porém, o fundo das consciências, perscrutai bem o sentido de suas palavras e descobrireis quase sempre esse princípio, se não categoricamente formulado, despontar por baixo da capa de uma pretensa filosofia racional, com a qual se cobrem. Lançando à conta do maravilhoso tudo o que decorre da existência da alma, são, pois, consequentes consigo mesmos; não admitindo a causa, não podem admitir os efeitos. Daí, entre eles, uma opinião preconcebida que os torna impróprios a julgar com isenção o Espiritismo, porque partem do princípio da negação de tudo o que não seja material. Quanto a nós, pela simples razão de admitirmos os efeitos que são a consequência da existência da alma, deveríamos aceitar todos os fatos qualificados de maravilhosos? Seríamos, porventura, os campeões de todos os sonhadores, os adeptos de todas as utopias, de todas as excentricidades sistemáticas? Pensar assim é conhecer bem pouco o Espiritismo. Mas os nossos adversários não atentam nisto muito de perto. A necessidade de conhecerem aquilo de que falam é a menor de suas preocupações.
Segundo eles, o maravilhoso é absurdo. Ora, o Espiritismo se apoia em fatos maravilhosos; logo o Espiritismo é absurdo. E consideram sem apelação essa sentença. Acham que opõem um argumento irretorquível quando, depois de terem realizado eruditas pesquisas acerca dos convulsionários de Saint-Médard, dos calvinistas das Cévennes, ou das religiosas de Loudun, chegaram à descoberta de evidentes trapaças, que ninguém contesta. Semelhantes histórias, porém, serão o evangelho do Espiritismo? Terão os seus partidários negado que o charlatanismo tem explorado, em proveito próprio, alguns fatos? Que outros sejam fruto da imaginação? Que muitos tenham sido exagerados pelo fanatismo? Ele não é mais solidário com as extravagâncias que se cometem em seu nome do que a verdadeira ciência com os abusos da ignorância, ou a verdadeira religião pelos excessos do fanatismo. Muitos críticos só julgam o Espiritismo pelos contos de fada e pelas lendas populares que lhes são as ficções. Dar-se- ia a mesma coisa com quem quisesse julgar a História pelos romances históricos ou pelas tragédias.