Quanto às várias posições sociais, não passam de provas diversas às quais o espírito é submetido, conforme a necessidade, e pelas quais passamos alternadamente, ora como pobres, ora como ricos, ora poderosos, ora fracos, ora senhores, ora escravos, ora dotados de uma organização física que, deixando às nossas faculdades todo o seu impulso, nos permite representar um papel brilhante na cena do mundo; ou, ao contrário, constrangidos por órgãos rebeldes e condenados a uma impotência e a uma inferioridade tanto mais penosa quanto podemos, algumas vezes, ter o sentimento de nossa real superioridade.
Aliás, o céu não pode ser um lugar fechado, que Deus nos abre ou nos fecha ao seu bel-prazer; não podemos concebê-lo senão como um estado superior da alma, que depende de nós atingir, aos nos purificarmos de nossas máculas, chegando a esse patamar intelectual e moral que está acima da natureza humana e que designamos sob o nome de natureza angélica.
Sim, nós somos, para me servir de uma expressão de Dante, a lagarta destinada a formar a angélica borboleta em seu vôo para a justiça, sem que nada lhe possa opor obstáculos!
Todavia, se quisermos refletir nos esforços que isto exige, não direi o aniquilamento, mas apenas a diminuição do menor dos nossos defeitos, e o crescimento, não a aquisição da menor de nossas qualidades, poderemos compreender quantas existências são necessárias para preencher a distância que separa o hotentote, espírito talvez no começo da Humanidade, de Sócrates, anjo sem dúvida descido dos céus para nos servir de modelo e guia.
O esforço, eis a lei, é a condição indispensável do progresso do Espírito; e, nas fases inferiores de sua existência, esse esforço necessário não poderia produzir-se sem as reencarnações.
Demonstrá-lo-ei no artigo seguinte, ao tratar da natureza das penas e recompensas futuras.
Esperando, creio poder fechar este artigo dizendo que a única coisa que nos deve preocupar nesta Terra, desde que ela é lugar de prova, é tirar o melhor partido possível da posição que ela está, na qual nos colocou aquele que, melhor que nós, conhece o de que precisamos e não pode ter preferências por nenhum de nós.
“Lembra-te, diz o escravo Epicteto, de desempenhar com cuidado o papel que o soberano senhor impôs: breve, se for breve, longo, se for longo. Se ele te deu a personalidade de um mendigo, trata de bem desincumbi-lo; sede manco, príncipe ou plebeu, se ele o quis.
Teu negócio é representar bem o teu papel, e o dele de o escolher.”
Victor Tournier Sessão Anual Comemorativa do dia dos Mortos