Notai bem que não são as três coisas juntas, mas somente uma das três é possível. O prelado não parece estar certo de qual, pois a intervenção diabólica não passa da pior. Ora, se é astúcia e alucinação, não é nada de sério, e não há intervenção do diabo; se é obra do demônio, é algo de positivo e, desse modo, não há astúcia nem alucinação. Na primeira hipótese é preciso convir que fazer tanto barulho por uma simples trapaça ou uma ilusão é bater-se contra moinhos de vento, papel pouco digno da gravidade da Igreja; no segundo é reconhecer ao diabo um poder maior que o da Igreja, ou à Igreja uma imensa fraqueza, já que não pode impedir o diabo de agir, como nem ela mesma pôde, apesar de todos os exorcismos, dele livrar os possessos de Morzine.
“Nós lá estávamos, senhor cura, em nosso labor apostólico, quando recebemos numerosos artigos de jornais, brochuras, livros, e principalmente um discurso (o do Pe. Nampon), no qual, salvo as idéias gerais, encontramos a exposição muito clara de tudo quanto íamos dizer a seguir, a propósito do Espiritismo. Como não gostamos de refazer, sem necessidade, o que julgamos bem feito, nós vos exortamos a adquirir algumas destas obras e, pelo menos, um exemplar desse discurso, que vos esclarecerá suficientemente quanto aos processos, a doutrina e as conseqüências do Espiritismo.”
Estamos muito contentes por saber que a obra do Pe.
Nampon é julgada pelos príncipes dos padres uma obra bem feita, de tal modo que, depois dela, não há nada melhor a fazer. É uma tranqüilidade para os espíritas saber que o reverendo padre esgotou todos os argumentos e que nada pode ser acrescentado. Ora, como esses argumentos, longe de deter o avanço do Espiritismo, lhe recrutaram partidários, cabe aos seus antagonistas mostrar-se satisfeitos com tão pouco. Quanto a esclarecer suficientemente os senhores curas sobre a doutrina, não pensamos que textos alterados e truncados, dos quais o padre Nampon usou e abusou, como o demonstramos (Revista de junho de 1863), sejam apropriados a dar do Espiritismo uma idéia muito justa. É preciso faltar boas razões para usar semelhantes meios, que desacreditam a causa de quem deles se serve.
“Antes de tudo, não seria deplorável reencontrar na Argélia cristãos sérios que hesitassem em se pronunciar energicamente contra o Espiritismo? uns sob o pretexto de que há nele algo de verdadeiro? outros porque viram materialistas obstinados voltar à crença na outra vida, através do Espiritismo? Ilógica ingenuidade de ambos os lados!”
Assim, nada representa levar à crença em Deus e na vida futura os materialistas obstinados; mesmo assim o Espiritismo não deixa de ser uma coisa má. Jesus, no entanto, disse que uma árvore má não pode dar bons frutos. Será, pois, um mau fruto dar a fé quem não a tem? Desde que não pudestes reconduzir esses incrédulos obstinados e o Espiritismo o conseguiu, qual a melhor das duas árvores? É evidente que sem o Espiritismo esses materialistas obstinados teriam continuado materialistas; e desde que o Sr. bispo quer a todo o vapor destruir o Espiritismo, que reconduz as almas a Deus, é que aos seus olhos é preferível que essas almas, que não foram reconduzidas pela Igreja, morram na incredulidade. Isto nos lembra aquelas palavras pronunciadas do púlpito de uma pequena cidade: “Prefiro que os incrédulos fiquem fora da Igreja a nela entrarem pelo Espiritismo.” De modo algum são palavras do Cristo, que disse: “Misericórdia quero, e não sacrifício.” E estas outras, pronunciadas alhures: “Prefiro ver os operários saindo embriagados do cabaré do que sabê-los espíritas.”
Isto é demência. Não nos surpreenderíamos se um acesso de fúria contra o Espiritismo produzisse uma verdadeira loucura.
“Se, mau grado a voz da consciência, homens educados nos princípios do Cristianismo e, infelizmente, os tendo esquecido, negado de coração e combatido em seus livros, tentassem condescender com esses princípios, admitindo uma imortalidade da alma, um purgatório e um inferno completamente diferentes da imortalidade da alma, do purgatório e do inferno dos Evangelhos, e ganhassem, pelo Espiritismo, algo para a fé e para salvação, que cristão poderia acreditar, desde que apenas puseram no lugar as mais sacrílegas blasfêmias da crença?”
Em que o purgatório dos espíritas difere do dos Evangelhos, já que os Evangelhos nada dizem sobre ele? Dele falam tão pouco que os protestantes, que seguem a letra do Evangelho, não o admitem. Quanto ao inferno, o Evangelho está longe de haver colocado as caldeiras ferventes que nele coloca o catolicismo e de ter dito, como nos ensinaram na infância, e como pregaram há três ou quatro anos em Montpellier, que “os anjos retiram as tampas dessas caldeiras para que os eleitos se regozijem com a visão dos sofrimentos dos danados.” Eis um lado singular da beatitude dos bem-aventurados; não sabíamos que Jesus houvesse dito uma palavra a respeito. O Espiritismo, é verdade, não admite tais coisas; se isto é motivo de reprovação, que, então, seja reprovado!
“Far-lhes-eis compreender, igualmente, que o Espiritismo é a restauração das teorias pagãs, caídas no desprezo dos sábios, antes mesmo do aparecimento do Evangelho; que, introduzindo a metempsicose, ou transmigração das almas, ele mata a individualidade pessoal e reduz a nada a responsabilidade moral; que, destruindo a idéia do purgatório e do inferno eternamente pessoal, abre caminho a todas as desordens, a todas as imoralidades.”
Se algo foi tomado às teorias pagãs, certamente foi o quadro das torturas do inferno. Aliás, não vemos claramente como, depois de haver admitido um purgatório qualquer, neguemos a idéia do purgatório. Quanto à metempsicose dos Antigos, longe de a ter introduzido, o Espiritismo a tem combatido sempre, demonstrando-lhe a impossibilidade. Quando, pois, cessarão de fazer o Espiritismo dizer o contrário do que diz? A pluralidade das existências, que ele admite, não como um sistema, mas como uma lei da Natureza provada pelos fatos, daquela difere essencialmente.
Ora, contra uma lei da Natureza, que é necessariamente obra de Deus, não há sistema que possa prevalecer, nem anátemas que a possam anular, assim como não anularam o movimento da Terra e os períodos da criação. A pluralidade das existências, o renascimento, se se quiser, é uma condição inerente à natureza humana, como a de dormir, e necessária ao progresso da alma. É sempre lamentável quando uma religião se obstina em ficar na retaguarda dos conhecimentos adquiridos, porque chega o momento em que, ultrapassada pela onda irresistível das idéias, ela perde o seu crédito e a sua influência sobre todos os homens instruídos. Julgar-se comprometida pelas idéias novas é confessar a fragilidade de seu ponto de apoio; é pior ainda quando se alarma diante do que chama uma utopia. É uma coisa curiosa, realmente, ver os adversários do Espiritismo esgrimindo para dizer que é um sonho vazio, sem alcance e sem vitalidade, e incessantemente gritar fogo!
Segundo a máxima: “Reconhece-se a qualidade da árvore pelo seu fruto”, a melhor maneira de julgar as coisas é estudar os seus efeitos. Se, pois, como pretendem, a negação do inferno eternamente pessoal abre caminho a todas as desordens e a todas as imoralidades, segue-se que: 1o – a crença nesse inferno abre caminho a todas as virtudes; 2o – quem quer que se entregue a atos imorais não teme as penas eternas, e se não as teme é porque nelas não crê. Ora, quem deve nele crer melhor do que os que as ensinam? quem deve estar penetrado desse medo, impressionado pelo quadro dos tormentos sem fim, mais do que os que, noite e dia, são embalados nesta crença? Onde esta crença e este medo deveriam estar em toda a sua força? onde deveria haver mais moderação e moralidade, senão no próprio seio da catolicidade? Se todos os que professam esse dogma e dele fazem uma condição de salvação estivessem isentos de reproches, certamente suas palavras teriam mais peso; mas quando se vêem tão escandalosas desordens entre os mesmos que pregam o medo do inferno, forçoso é concluir que não acreditam no que pregam. Como esperam convencer os que se inclinam à dúvida? Matam o dogma por seu próprio exagero e por seu exemplo. A julgar por seus frutos, o dogma das penas eternas não os dá bons, prova de que a árvore é má; e entre esses maus frutos é preciso colocar o imenso número de incrédulos que ele faz diariamente. A Igreja nele se agarra como numa corda de salvação, mas a corda está tão gasta, que em breve deixará o barco à deriva. Se alguma vez a Igreja periclitar, será pelo absolutismo de seus dogmas do inferno, das penas eternas e da supremacia que ela confere ao diabo neste mundo. Se não se pode ser católico sem acreditar nesse inferno e na danação eterna, forçoso é reconhecer, a partir de hoje, que o número dos verdadeiros católicos está singularmente reduzido, e que mais de um Pai da Igreja pode ser considerado como manchado de heresia.
“Não será inútil acrescentar, senhor cura, que a paz das famílias é gravemente perturbada pela prática do Espiritismo; que um grande número de cabeças por ele já perderam o senso e que as casas de alienados da América, Inglaterra e França regurgitam, desde já, por suas numerosas vítimas, de tal sorte que se o Espiritismo propagasse suas conquistas, seria necessário mudar o nome de sanatório para hospício.”