Controvérsias sobre a ideia da existência de seres intermediários entre o homem e Deus
Entretanto, muitos ainda as repelem, o que é comum a todas as grandes ideias novas que mudam os hábitos e as crenças, as quais todas esbarraram durante longo tempo em contraditores obstinados, mesmo entre os homens mais esclarecidos. Um dia, porém, chega em que o que é verdadeiro sobreleva o que é falso e todos se admiram da oposição que lhe moveram, tão natural parece o que fora repelido. O mesmo se dará com o Espiritismo, sendo de notar-se que de todas as grandes ideias que hão revolucionado o mundo, nenhuma conquistou em tão pouco tempo tão grande número de adeptos em todos os países e em todas as camadas sociais. Tal a razão por que os espíritas, cuja fé não é cega, antes se funda na observação, não se preocupam nem com os seus contraditores, nem com os que lhes partilham das ideias. Eles ponderam que, ressaltando das próprias Leis da Natureza, em vez de basear-se numa derrogação dessas leis, não pode a Doutrina deixar de prevalecer, desde que essas leis sejam reconhecidas. Como todos sabem, não é nova a ideia da existência de seres intermediários entre Deus e o homem. Em geral, porém, toda gente supunha que esses seres constituíam uma criação à parte. As religiões os designaram pelos nomes de anjos e demônios, os pagãos lhes chamavam deuses. Provando que tais seres não são senão as almas dos homens em diferentes graus da escala espiritual, o Espiritismo reintegra a criação na unidade grandiosa que é a essência mesma das Leis divinas. Em vez de uma imensidade de criações estacionárias, que implicariam, da parte da Divindade, capricho ou parcialidade, ele mostra haver uma única, essencialmente progressiva, sem privilégio para qualquer criatura, elevando-se cada individualidade do estado de embrião ao de desenvolvimento completo, como o gérmen que da semente se eleva ao estado de árvore. O Espiritismo, pois, revela a unidade, a harmonia e a justiça na Criação. Segundo ele, os demônios são as almas atrasadas, ainda prenhes dos vícios da Humanidade; os anjos são essas mesmas almas depuradas e desmaterializadas; entre esses dois pontos extremos, a multidão das almas nos diferentes graus da escala progressiva. Estabelece desse modo a solidariedade entre o Mundo Espiritual e o mundo corpóreo. Quanto à questão proposta: “Nos fenômenos espíritas ou sonambúlicos, qual o limite onde cessa a ação própria da alma e começa a dos Espíritos?” — diremos que semelhante limite não existe, ou, melhor, que nada tem de absoluto. Desde que não há espécies distintas, que a alma é apenas um Espírito encarnado, e o Espírito apenas uma alma desprendida dos liames terrenos; que uma e outro são um mesmo ser em meios diferentes, as faculdades e aptidões têm que ser as mesmas. O sonambulismo é um estado transitório entre a encarnação e a desencarnação, um estado de desprendimento parcial, um pé antecipadamente posto no Mundo Espiritual. A alma encarnada, ou, se o preferirem o próprio Espírito do sonâmbulo ou do médium, pode, portanto, fazer quase o que fará a alma desencarnada e até mais, se for mais adiantado, com a única diferença, todavia, de que, estando mais livre pelo seu desprendimento completo, a alma tem percepções especiais inerentes ao seu estado. É por vezes muito difícil distinguir, num dado efeito, o que provém diretamente da alma do médium do que promana de uma causa estranha, porque com frequência as duas ações se confundem e convalidam. É assim que nas curas por imposição das mãos, o Espírito do médium pode atuar por si só, ou com a assistência de outro Espírito; que a inspiração poética ou artística pode ter dupla origem. Mas do fato de ser difícil fazer-se uma distinção como essa não se segue seja ela impossível. Não raro, a dualidade é evidente e, em todos os casos, quase sempre ressalta de atenta observação.
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Parte Primeira
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