2ª Parte - Cap. 7: As Epístolas
As mãos e o rosto estavam cheios de ci catrizes. O ex-pescador, diante do que via, falou -lhe com entusiasmo das suas epístolas, que se espalhavam por todas as igrejas, lidas com avidez; profundamente experimen tado em problemas de ordem espiritual, alegou a convicção de que aquelas cartas provinham de uma inspira ção direta do Mestre Divino, observação que Paulo de Tarso recebeu comovidíssimo, dada a espontaneidade do companheiro. Além disso — acrescentava Simão praze rosamente —, não podia haver elemento educativ o de tão elevado alcance quanto aquele. Conhecia cristãos da Palestina que guardavam cópias numerosas da mensagem aos tessalonicenses. As igrejas de Jope e Antipátris, por exemplo, comentavam as epístolas, frase por frase. O ex-rabino sentiu imenso confort o para prosseguir na luta redentora. Após alguns dias, demandou Antioquia, junto dos discípulos. Descansou algum tempo junto dos compa nheiros bem-amados, mas sua poderosa capacidade de trabalho não permitia maiores intermitências de repouso. Nessa época, não passava semana que não recebesse representações de diversas igrejas, dos pontos mais dis tantes. Antioquia de Pisídia sumariava dificuldades; Icônio reclamava novas visitas; Beréia rogava providên cias. Corinto carecia esclarecimentos. Colossas insisti a por sua presença breve. Paulo de Tarso, valendo -se dos companheiros da ocasião, enviava -lhes letras novas, a todos atendendo com o maior carinho. Em tais cir cunstâncias, nunca mais o Apóstolo dos gentios esteve só na tarefa evangelizadora. Sempre assistido por discípulos numerosos, suas epístolas, que ficariam para os cristãos do futuro, estão, em sua maioria, repletas de referências pessoais, suaves e doces. Terminando o estágio em Antioquia, voltou ao berço natal, aí falando das verdades eternas e conseguindo despertar grande número de tarsenses para as realidades do Evangelho. Em seguida, internou-se de novo pelas alturas do Tauro, visitou as comunidades de toda a Galácia e Frígia, levantando o ânimo dos companheiros de fé, no que empregou elevada per centagem de tempo. Nesse afã incansável e incessante, conseguiu arregimen tar novos discípulos para Jesus, distribuindo grandes benefícios em todos os recantos iluminados pela sua palavra edificante, porque também ilustrada em fatos. Em toda parte, lutas sem tréguas, alegrias e dores, angústias e amarguras do mundo, que não chegavam a lhe arrefecer as esperanças nas promessas de Jesus. De um lado, eram os israelitas rigorosos, inimigos ferrenhos e declarados do Salvador; do outro, os cristãos indecisos, va cilando entre as conveniências pessoais e as falsas interpretações, O missionário tarsense, no entanto, conhecendo que o discípulo sincero terá de experimentar as sensações da “porta estreita” todos os dias, nunca se deixou empolgar pelo desânimo, renovando a cada hora o propósito de tudo suportar, agir, fazer e edificar pelo Evangelho, inteiramente entregue a Jesus -Cristo. Vencidas as lutas indefesas, deliberou regressar a Éfeso, interessado na feitura do Evangelho decalcado nas recordações de Maria. Não mais encontrou Áquila e Prisca, retornados a Corinto em companhia de um tal Apolo, que se nota bilizara por sua cultura, entre os recém convertidos. Embora pretendesse apenas manter algumas conversa ções mais longas com a filha inesquecível de Nazaré, foi c ompelido a enfrentar a luta séria com os coopera dores de João. A sinagoga conseguira grande ascendente político sobre a igreja da cidade, que ameaçava soçobrar. O ex rabino percebeu o perigo e aceitou a luta, sem reservas. Durante três meses discutiu na sinagoga, em todas as reuniões. A cidade, que se mantinha em dúvidas atrozes, parecia alcançar uma compreensão mais elevada e mais rica de luzes. Multiplicando as curas maravilho sas, Paulo, um dia, tendo imposto as mãos sobre alguns doentes, foi rodeado po r claridade indefinível do mundo espiritual. As vozes santificadas, que se manifestavam em Jerusalém e Antioquia, falaram na praça pública. Esse fato teve enorme repercussão e deu maior autori dade aos argumentos do Apóstolo, em contradita aos judeu s. Em Éfeso não se falava de outra coisa. O ex -rabino fora elevado ao apogeu da consideração, de um dia para outro. Os israelitas perdiam terreno em toda a linha. O tecelão valeu -se do ensejo para lançar raízes evangé licas mais fundas nos corações. Secund ando o esforço de João, procurou instalar na igreja os serviços de assis tência aos mais desfavorecidos da fortuna. A instituição enriquecia-se de valores espirituais. Compreendendo a importância da organização de Éfeso para toda a Ásia, Paulo de Tarso del iberou prolongar, ali, a sua permanência. Vieram discípulos da Macedônia. Áquila e a es posa tinham regressado de Corinto; Timóteo, Silas e Tito cooperavam ativamente visitando as fundações cristãs já estabelecidas. Assim vigorosamente auxiliado, o generoso Apóstolo multiplicava as curas e os benefícios em nome do Senhor. Trabalhando pela vitória dos princípios do Mestre, fez que muitos abandonassem crendices e supers tições perigosas, para se entregarem aos braços amorosos do Cristo. Esse ritmo de trabalho fecundo perdurava há mais de dois anos, quando surgiu um acontecimento de vasta repercussão entre os efésios. A cidade votava um culto especial à deusa Diana. Pequeninas estátuas, imagens fragmentárias da divin dade mitológica surgiam em todos os cantos, bem como nos adornos da população. A pregação de Paulo, entre tanto, modificara as preferências do povo. Quase nin guém se interessava mais pela aquisição das imagens da deusa. Esse culto, porém, era tão lucrativo que os ourives da época, chefiados por um artífice de nome Demétrio, iniciaram veemente protesto perante as autoridades competentes. Os prejudicados alegavam que a campanha do Após tolo aniquilava as melhores tradições populares da cidade notável e florescente. O culto a Diana vinha dos antepassados e merecia mais respeito; além disso, toda uma classe de homens válidos ficava sem trabalho. Demétrio movimentou-se, Os ourives reuniram -se e pagaram amotinadores. Sabiam que Paulo falaria no teatro, naquela mesma noite que sucedeu às combinações definitivas. Pagos pelos artífices, os maliciosos começaram a espalhar boatos entre os mais crédulos. Insinuavam que o ex -rabino preparava-se para arrombar o templo de Diana, a fim de queimar os objetos do Culto. Acrescentavam que a malta iconoclasta sairia do teatro para executar o projeto Sinistro. Irritaram -se os ânimos. O plano de Demétrio calava fundo na ima ginação dos mais simplórios. Ao entardecer, grande massa popular postou -se na vasta praça, em atitude expectante. A noite fechou, a multidão crescia sempre. Ao acenderem -se no teatro as primeiras luzes, os ourives acreditaram que o Apóstolo lá estivesse. Com imprecações e gestos ameaçadores, a multidão avançou em furiosa grita, mas somente Gaio e Aristarco, irmãos da Macedônia, ali se encontravam, preparando o ambiente das pregações da noite. Ambos foram presos pelos exaltados. Verificando a ausência do ex -rabino, a massa inconsciente encaminhou-se para a tenda de Áquila e Prisca. Paulo, no entanto, lá não estava. A oficina singela do casal cristão foi totalmente desmantelada a golpes impiedosos. Teares quebrados, peças de couro atiradas à rua, furiosamente. Por fim, o casal foi preso, sob os apupos da turba exacerbada. A notícia espalhou-se com extrema rapidez. A co luna revolucionária arrebanhava aderentes em todas as ruas, dado o seu caráter festivo. Debalde acorreram soldados para conter a multidão. Os maiores esforços tornavam -se inúteis. De vez em quando Demétrio asso mava a uma tribuna improvisada e dirigia-se ao povo envenenando os ânimos. Recolhido à residência de um amigo, Paulo de Tarso inteirou -se dos fatos graves que se desenrolavam por sua causa. Seu primeiro impulso foi seguir logo ao encontro dos companheiros capturados, para libertá -los, mas os irmãos impediram-lhe a saída. Essa noite d olorosa ficaria inesquecível em sua vida. Ao longe, ouvia-se a gritaria estentórica: — “Grande é a Diana de Éfeso! Grande é a Diana de Éfeso!” Mas o Apóstolo, constran gido à força, pelos companheiros, houve que desistir de esclarecer a massa popular, na praça pública. Só muito tarde, o escrivão da cidade conseguiu falar ao povo, concitando -o a levar a causa a juízo, abando nando o louco propósito de fazer justiça pelas próprias mãos. A assembléia dispersou -se, pouco antes da meia -noite, mas só atendeu à autoridade depois de ver Gaio, Aristarco e o casal de tecelões trancafiados na enxovia. No dia seguinte, o generoso Apóstolo dos gentios foi, em companhia de João, observar os destroços da tenda de Áquila. Tudo em frangalhos na via pública. Paulo refletiu com imensa mágoa nos amigos presos e falou ao filho de Zebedeu, com os olhos mareados de lágrimas. — Como tudo isto me contrista! Áquila e Prisca têm sido meus companheiros de luta, desde as primeiras horas da minha conversão a Jesus. Por eles devia eu sofrer tudo, pelo muito amor que lhes devo; assim, não julgo razoável que sofram por minha causa. — A causa é do Cristo! — respondeu João com acerto. O ex-rabino pareceu conformar -se com a observação e sentenciou: — Sim, o Mestre nos consolará. E, depois de concentrar-se longamente, murmurou: — Estamos em lutas incessantes na Ásia, há mais de vinte anos... Agora, preciso retirar-me da Jônia, sem demora. Os golpes vieram de todos os lados. Pelo bem que desejamos, fazem -nos todo o mal que podem. Ai de nós se não trouxéssemos as marcas do Cristo Jesus! O pregador valoroso, tão desassombrado e resistente, chorava! João percebeu, contemplou-lhe os cabelos prematuramente encanecidos e procurou desviar o assunto: — Não te vás por enquanto — disse solícito —, ainda és necessário aqui. — Impossível — respondeu com tristeza —, a revolução dos artífices continuaria. Todos os irmãos paga riam caro a minha companhia. — Mas não pretendes escrever o Evangelho, con soante as recordações de Maria?
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Capítulo 7
Nome do Capítulo As Epístolas
Parte Segunda Parte