Aliás, é de notar que se ele não admite essas relações, também não as nega de maneira absoluta; nem mesmo repugna-lhe à razão conceber a sua possibilidade; com efeito, essa possibilidade decorre muito naturalmente do que ele admite. O que lhe falta, diz ele, são as provas do fato das comunicações. Pois bem! essas provas lhe chegarão, mais cedo ou mais tarde; ele as encontrará, quer na observação atenta das circunstâncias que acompanham certas comunicações mediúnicas, quer na inumerável variedade das manifestações espontâneas, que se produziam antes do Espiritismo, e ainda se produzem em pessoas que não o conhecem ou nele não acreditam, e nas quais, conseqüentemente, não se poderia admitir a influência de uma idéia preconcebida. Seria preciso ignorar os primeiros elementos do Espiritismo para crer que o fato das manifestações só se produza entre os adeptos.
Esperando, e ainda mesmo que aí devesse deter-se a sua convicção, seria desejável que todos os materialistas o fossem a esse ponto. Devemos, pois, felicitar-nos por o contar entre os homens de valor, pelo menos simpáticos à idéia geral, e por ver um jornal recomendável por seu caráter sério e sua independência, combater conosco a incredulidade absoluta em matéria de espiritualidade, tão bem quanto os abusos que fizeram do princípio espiritual.
Marchamos para o mesmo fim por estradas diferentes, mas convergindo para um ponto comum e se aproximando cada vez mais pelas idéias; algumas dissidências sobre questões de detalhe não nos devem impedir de nos estendermos a mão.
Nesses tempos de efervescência e de aspiração para um melhor estado de coisas, cada um traz sua pedra para a edificação do mundo novo; cada um trabalha de seu lado, com os meios que lhe são próprios; o Espiritismo traz seu contingente, que ainda não está completo; mas como não é exclusivo, não rejeita nenhum concurso; aceita o bem, que pode servir à grande causa da Humanidade, venha de onde viver, ainda mesmo que dos seus adversários.
Como dissemos no começo, não empreenderemos a refutação da teoria exposta no Solidarité sobre a fonte das manifestações inteligentes; sobre isto diremos apenas algumas palavras.
Como se vê, essa teoria não é outra senão um dos primeiros sistemas surgidos na origem do Espiritismo, quando a experiência ainda não havia elucidado a questão. Ora, é notório que tal opinião está hoje reduzida a algumas raras individualidades. Se verdadeira, por que não teria prevalecido? Como é que milhões de espíritas, que há quinze anos experimentam no mundo inteiro e em todas as línguas, que se recrutam, em sua maioria, na classe esclarecida, que contam em suas fileiras homens de saber e de incontestável valor intelectual, tais como médicos, engenheiros, magistrados, etc., tenham constatado a realidade das manifestações, se ela não existisse? Pode-se admitir razoavelmente que todos se tenham iludido? Que não se tenham encontrado entre eles homens dotados de bastante bom-senso e perspicácia para reconhecer a verdadeira causa? Como dissemos, essa teoria não é nova e não passou inapercebida entre os espíritas; ao contrário, tem sido seriamente meditada e explorada por eles, e é precisamente porque a viram desmentida pelos fatos, impotente para os explicar todos, que foi abandonada.
É grave erro crer que os espíritas tenham vindo com a idéia preconcebida da intervenção dos Espíritos nas manifestações; se foi assim com alguns, a verdade é que o maior número não chegou à crença senão depois de ter passado pela dúvida ou pela incredulidade.
É igualmente um erro crer que, sem o a priori da crença nos Espíritos, jamais se tivessem decidido a fazer girar as mesas. O fenômeno das mesas girantes e falantes era conhecido no tempo de Tertuliano e, na China, desde tempos imemoriais. Na Tartária e na Sibéria conheciam as mesas volantes.30 Em certas províncias da Espanha servem-se de peneiras, suspensas pelas pontas de tesouras. Os que interrogam julgam que são os Espíritos que respondem? Absolutamente; perguntai-lhes o que é e eles nada sabem: é a mesa, é a peneira, dotada de uma força desconhecida; interrogam esses movimentos como os da varinha de condão, sem ir além do fato material.
Os fenômenos espíritas modernos não começaram pelas mesas, mas por pancadas espontâneas, dadas nas paredes e nos móveis; esses ruídos causaram espanto, surpreenderam; seu modo de percussão tinha algo de insólito, um caráter intencional, uma persistência que parecia chamar a atenção para um determinado ponto, como quando alguém bate para advertir. Os primeiros movimentos de mesas ou outros objetos foram igualmente espontâneos, como ainda hoje o são em certos indivíduos que não têm qualquer conhecimento do Espiritismo. Dá-se aqui como na maior parte dos fenômenos naturais, que se produzem diariamente e, todavia, passam despercebidos, ou cuja causa fica ignorada, até o momento em que observadores sérios e mais esclarecidos lhes prestam atenção, estudam-nos e os exploram.
Assim, de duas teorias contrárias, nascidas na mesma época, uma cresce com o tempo, por força da experiência, e se generaliza, ao passo que a outra se extingue. Em favor de qual há presunção de verdade e de sobrevivência? Não damos isto como prova, mas como um fato que merece ser levado em consideração.
O Sr. Fauvety apóia-se em que nada encontrou nas comunicações mediúnicas que ultrapasse o alcance do cérebro. Eis ainda aí uma velha objeção cem vezes refutada pela própria Doutrina Espírita. Alguma vez o Espiritismo teria dito que os Espíritos fossem seres fora da Humanidade? Ao contrário, ele vem destruir o preconceito que deles faz seres excepcionais, anjos ou demônios, intermediários entre o homem e a Divindade, espécies de semideuses.
Repousa sobre o princípio de que os Espíritos não são outros senão homens despojados de seu invólucro material; que o mundo visível transborda incessantemente, pela morte, no mundo invisível, e este no mundo carnal, pelos nascimentos.
Desde que os Espíritos pertencem à Humanidade, por que haveriam de querer que tivessem uma linguagem sobre-humana? Sabemos que alguns dentre eles não sabem mais, e por vezes muito menos que certos homens, pois que se instruem com esses últimos; os que eram incapazes de fazer obras-primas quando vivos, não as farão como Espíritos; o Espírito de um hotentote não falará como um acadêmico, e o Espírito de um acadêmico, que não passa de um ser humano, não falará como um deus.
Não é, pois, na excentricidade de suas idéias e de seus pensamentos, na superioridade excepcional de seu estilo que se deve buscar a prova da origem espiritual das comunicações, mas nas circunstâncias que atestam que, numa multidão de casos, o pensamento não pode vir de um encarnado, mesmo que fosse da última trivialidade.
Desses fatos ressalta a prova da existência do mundo invisível, no meio do qual vivemos, e por isto os Espíritos do mais baixo estágio o provam tão bem quanto os mais elevados. Ora, a existência do mundo invisível em meio de nós, parte integrante da Humanidade terrestre, desaguadouro das almas desencarnadas e fonte das almas encarnadas, é um fato capital, imenso; é toda uma revolução nas crenças; é a chave do passado e do futuro do homem, que em vão buscaram todos os filósofos, como os sábios buscaram em vão a chave dos mistérios astronômicos antes de conhecer a lei da gravitação. Que se acompanhe a fieira das conseqüências forçadas desse único fato: a existência do mundo invisível em torno de nós, e se chegará a uma transformação completa, inevitável, nas idéias, à destruição dos preconceitos e dos abusos delas decorrentes e, por conseqüência, a uma modificação das relações sociais.
Eis aonde leva o Espiritismo. Sua doutrina é o desenvolvimento, a dedução das conseqüências do fato principal, cuja existência acaba de revelar. Essas conseqüências são inumeráveis, porque, pouco a pouco, tocam em todos os ramos da ordem social, tanto no físico quanto no moral. É o que compreendem todos os que se deram ao trabalho de o estudar seriamente, e que compreenderão ainda melhor mais tarde, mas não os que, só lhe tendo visto a superfície, imaginam que ele esteja todo inteiro numa mesa que gira ou nas perguntas pueris sobre a identidade dos Espíritos.
Para maiores desenvolvimentos sobre certas questões tratadas neste artigo, remetemos ao primeiro capítulo de A Gênese: “Caráter da revelação espírita”.31