Só há, portanto, aborrecimento, e não perigo, para todo médium que não se deixa enganar, porque não poderá ser enganado. Muito diferente é o que se dá com a fascinação, porque então não tem limites o domínio que o Espírito assume sobre o encarnado de quem se apoderou. A única coisa a fazer-se com a vítima é convencê-la de que está sendo ludibriada e reverter a sua obsessão para a obsessão simples. Isto, porém, nem sempre é fácil, para não dizer impossível, algumas vezes. O ascendente do Espírito pode ser de tal gravidade, que torne o fascinado surdo a toda espécie de raciocínio, chegando até mesmo a pô-lo em dúvida quanto ao acerto ou erro da Ciência, quando o Espírito comete alguma grosseira heresia científica.
Como já dissemos, o fascinado geralmente acolhe muito mal os conselhos que lhe dão. A crítica o aborrece, irrita e o faz tomar-se de aversão pelas pessoas que não partilham da sua admiração. Suspeitar do Espírito que o acompanha é, aos seus olhos, quase uma profanação, e outra coisa não quer o dito Espírito, pois tudo o que ele realmente deseja é que todos se curvem diante da sua palavra.
Um deles exercia, sobre pessoa do nosso conhecimento, uma fascinação extraordinária. Evocamo-lo e, depois de algumas bravatas, vendo que não conseguia enganar-nos quanto à sua identidade, acabou por confessar que não era quem se dizia. Sendo-lhe perguntado por que ludibriava de tal modo aquela pessoa, respondeu com estas palavras, que revelam claramente o caráter desse gênero de Espíritos: Eu procurava um homem a quem pudesse manejar; encontrei-o e ficarei com ele. — Mas, se lhe forem mostradas as coisas como são, ele vos expulsará. — É o que veremos! Como não há cego pior do que aquele que não quer ver, quando se reconhece a inutilidade de todas as tentativas para abrir os olhos do fascinado, o melhor que se tem a fazer é deixá-lo com as suas ilusões. Ninguém pode curar o doente que se obstina em conservar o seu mal e nele se compraz.