Estatística de Suicídios
A isto talvez objetem que nem todos os suicidas são materialistas, considerando-se que há pessoas que se matam para mais depressa ganharem o céu, e outras para se reunirem mais cedo àqueles a quem amaram. É verdade, mas é, incontestavelmente, o menor número, de que nos convenceríamos se dispuséssemos de uma estatística, feita conscienciosamente, das causas íntimas de todos os suicídios. Seja como for, se as pessoas que cedem a tal pensamento crêem na vida futura, torna-se evidente que dela fazem um juízo completamente falso e a maneira pela qual a apresentam em geral não é muito apropriada para fazerem uma idéia mais justa. O Espiritismo não só vem confirmar a teoria da vida futura, mas a prova pelos fatos mais patentes possíveis: o testemunho daqueles que nela se encontram. E faz mais, ao no-la mostrar sob cores tão racionais, tão lógicas, que o raciocínio vem em apoio da fé. Não sendo permitida a dúvida, muda o aspecto da vida; sua importância diminui em razão da certeza que se adquire de um futuro mais próspero. Para o crente, a vida se prolonga indefinidamente para além do túmulo; daí a paciência e a resignação que naturalmente afastam a idéia do suicídio; daí, numa palavra, a coragem moral. Sob esse aspecto tem ainda o Espiritismo um outro resultado muito positivo e, talvez, mais determinante. Bem diz a religião que o suicídio é um pecado mortal, pelo qual se é punido. Mas como? Pelas chamas eternas, nas quais não mais se acredita. O Espiritismo nos mostra os próprios suicidas vindo explicar a sua posição infeliz, mas com uma diferença: as penas variam de acordo com as circunstâncias agravantes ou atenuantes, o que é mais conforme à justiça de Deus; que, em vez de serem uniformes, são a conseqüência muito natural da causa que provocou a falta, o que não se pode deixar de aí ver uma soberana justiça, distribuída com eqüidade. Entre os suicidas uns há cujo sofrimento, não obstante temporário, nem por isso é menos terrível e capaz de fazer refletir a quem quer que se sinta tentado a partir daqui antes da ordem de Deus. O espírita tem, assim, como contrapeso ao pensamento do suicídio vários motivos: a certeza de uma vida futura, na qual sabe que será tanto mais feliz quanto mais infeliz e resignado tiver sido na Terra; a certeza de que, abreviando a vida, chega a um resultado inteiramente oposto ao que esperava; que se liberta de um mal para cair noutro pior, mais longo e mais terrível; que não poderá rever no outro mundo os objetos de suas afeições, aos quais queria unir-se. Chega, assim, à conclusão de que o suicídio é contra os seus interesses. É por isso que o número de suicídios evitados pelo Espiritismo é considerável; de onde se pode inferir que, quando todo o mundo for espírita, não mais haverá suicídios voluntários, o que acontecerá mais cedo do que se imagina. Comparando, pois, os resultados das doutrinas materialista e espírita, apenas do ponto de vista do suicídio, constatamos que a lógica de um a ele conduz, enquanto a lógica do outro dele afasta, o que é confirmado pela experiência. Mas – perguntarão – por esse meio destruireis a hipocondria, essa causa de tantos suicídios não motivados, desse insuportável desgosto da vida, que nada parece justificar? Esta causa é eminentemente fisiológica, ao passo que as outras são morais. Ora, se o Espiritismo só curasse estas, já seria muito; a primeira é, propriamente falando, da alçada da Ciência, à qual poderíamos abandoná-la, dizendo: Nós curamos aquilo que nos diz respeito; por que não curais o que é da vossa competência? Contudo, não hesitamos em responder à questão afirmativamente. Evidentemente certas afecções orgânicas são alimentadas, e mesmo provocadas, pelas disposições morais. O desgosto da vida o mais das vezes é fruto da saciedade. O homem que tudo usou, não vendo nada além, está na situação do ébrio que, tendo esvaziado a garrafa e nada mais tendo, a quebra. Os abusos e os excessos de toda sorte levam forçosamente a um enfraquecimento e a uma perturbação das funções vitais; daí uma porção de doenças cuja fonte é desconhecida e que julgamos causativas, quando, na verdade, são apenas consecutivas; daí, também, uma sensação de langor e de desalento. O que faltaria ao hipocondríaco para combater suas idéias melancólicas? Um objetivo na vida, um móvel à sua atividade. Que objetivo pode ter se em nada crê? O espírita faz mais do que acreditar no futuro: sabe, não pelos olhos da fé, mas pelos exemplos que tem à frente, que a vida futura, à qual não pode escapar, é feliz ou infeliz conforme o emprego que faça da vida corpórea; que a felicidade é proporcional ao bem que fizer. Ora, certo de viver depois da morte, e de viver muito mais tempo do que na Terra, é muito natural que pense em ser ali o mais feliz possível; além disso, certo de lá ser infeliz se não fizer o bem, ou mesmo se, não fazendo o mal, nada faz, compreende a necessidade de uma ocupação, o melhor preservativo contra a hipocondria. Com a certeza do futuro, tem um objetivo; com a dúvida, não o tem. É tomado pelo tédio e acaba com a vida porque nada mais espera. Que nos permitam uma comparação um pouco trivial, mas à qual não falta analogia: Um homem passou uma hora assistindo a um espetáculo. Se pensa que a peça acabou, levanta-se e sai; mas se souber que ainda vão representar coisa melhor e mais longa do que o que viu, ficará, mesmo que no pior lugar. A espera do melhor nele vencerá a fadiga. As mesmas causas que levam ao suicídio também provocam a loucura. O remédio de um é o remédio da outra, como o demonstramos alhures. Infelizmente, enquanto a Medicina só levar em conta o elemento material, privar-se-á de todas as luzes que lhe traria o elemento espiritual, o qual representa papel tão ativo num grande número de afecções. Além disso, o Espiritismo nos revela a causa primeira do suicídio, e só ele o poderia fazer. As tribulações da vida são, ao mesmo tempo, expiações de faltas de vidas passadas e provas para o futuro. O próprio Espírito as escolhe, visando ao seu adiantamento; mas pode acontecer que, uma vez na obra, ache muito pesada a carga e recue na sua execução; é, então, que recorre ao suicídio, o que o retarda, ao invés de o fazer avançar. Acontece ainda que um Espírito se suicidou em precedente encarnação e, como expiação, é-lhe imposto na seguinte lutar contra a tendência do suicídio. Se sair vitorioso, progride; se sucumbir, terá de recomeçar uma vida talvez mais penosa ainda que a precedente e, assim, deverá lutar até que haja triunfado, pois toda recompensa na outra vida é fruto de uma vitória, e quem diz vitória diz luta. O espírita haure, pois, na certeza que ele tem deste estado de coisas, uma força de perseverança que nenhuma outra filosofia lhe poderia dar. A. K.
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Mês Julho
Ano 1862