Sob o primeiro título publicamos, em setembro de 1864, um artigo no qual estava provado, por fatos autênticos, que, para os Espíritos, não havia Pirineus, e que eles até se riam dos autos-de-fé. A carta do Sr. Delanne, publicada em nosso último número, é uma nova prova. Aí se menciona sumariamente a cura de uma obsessão, devida ao zelo e à perseverança de alguns espíritas sinceros e devotados de Barcelona. Enviaram-nos o relato detalhado dessa cura, que julgamos por bem publicar, assim como a carta que a acompanhava: Senhor e caro mestre, Tivemos o privilégio de ter conosco o nosso caro irmão em crença Sr. Delanne, e lhe demos informações de nossos fracos trabalhos, bem como de nossos esforços para proporcionar alívio a alguns pobres pacientes, que Deus se dignou pôr em nossas mãos.
Entre estes havia uma mulher que, durante 15 anos, foi vítima de uma obsessão das mais cruéis, e que Deus nos permitiu curar.
Certamente não era nossa intenção mencioná-la, porque trabalhamos em silêncio, sem nos quereremos atribuir qualquer mérito. Mas, como o Sr. Delanne nos disse que o relato dessa cura talvez servisse de estímulo a outros crentes que, como nós, se devotariam a essa obra de caridade, não vacilamos em vo-lo enviar.
Bendizemos a mão do Senhor, que nos permite saborear o fruto de nossos trabalhos e já nos dá aqui a sua recompensa.
Durante a Semana Santa foram pregados vários sermões contra o Espiritismo, dos quais um se destacava pelos absurdos. O pregador indagava aos fiéis se eles ficariam satisfeitos em saber que as almas de seus parentes renasciam em corpos de boi, de jumento, de porco ou outro animal qualquer. Eis, diz ele, o Espiritismo, meus caros irmãos; ele é perfeito para o espírito leviano dos franceses, mas não para vós, espanhóis, sérios demais para o admitir e nele acreditar.
Aceitai, J. M. F.
Casada em 1850, Rose N... foi acometida, poucos dias após o casamento, de ataques espasmódicos, que se repetiam com muita freqüência e com violência, até engravidar. Durante a gravidez nada experimentou, mas, depois do parto, os mesmos acidentes se renovavam; muitas vezes as crises duravam três ou quatro horas, durante as quais ela fazia toda sorte de extravagâncias e eram precisas três ou quatro pessoas para dominá-la. Entre os médicos chamados, uns diziam que era uma doença nervosa; outros, que era loucura. O mesmo sintoma se repetia em cada gravidez, isto é, os acidentes cessavam durante a gestação e recomeçavam após o parto.
Isto já durava vários anos. O pobre casal estava cansado de consultar a uns e outros e a fazer uso de remédios que não davam o menor resultado. Essa gente simples estava no limite da paciência e dos recursos, pois, algumas vezes, a mulher ficava meses inteiros sem poder dedicar-se aos trabalhos domésticos. Por vezes sentia ligeira melhora, que fazia supor uma cura, mas, após algumas semanas de trégua, o mal reaparecia com terrível recrudescência.
Como algumas pessoas os persuadissem de que um mal tão rebelde deveria ser obra do demônio, eles recorreram aos exorcismos e a paciente se dirigiu a um santuário distante vinte léguas, de onde voltou aparentemente tranqüila; mas; ao cabo de alguns dias o mal voltou com nova intensidade. Ela partiu para outro retiro, onde permaneceu quatro meses, durante os quais ficou tão tranqüila que a julgaram curada. Voltou, então, à sua família, alegre por se ver, enfim, livre da cruel doença; contudo, após algumas semanas, suas esperanças novamente foram por água a baixo, já que os acessos voltaram com mais força que nunca.
Marido e mulher estavam desesperados.
Foi em julho último, 1864, que um de nossos amigos e irmão em crença nos deu conhecimento do fato, propondo que tentássemos aliviar, se não curar, essa pobre perseguida, pois a julgava tomada de uma obsessão das mais cruéis. Na ocasião a doente estava sendo submetida a tratamento magnético, que lhe havia proporcionado um certo alívio; mas o magnetizador, embora espírita, não tinha meios de evocar o Espírito obsessor, por falta de médiuns e, apesar de sua vontade, não podia produzir o efeito desejado. Aceitamos com interesse essa oportunidade de fazer uma boa obra. Reunimos vários adeptos sinceros e mandamos trazer a doente.
Bastaram alguns minutos para reconhecermos a causa da moléstia de Rose. Era, com efeito, uma obsessão das mais terríveis. Tivemos muito trabalho para fazer o obsessor vir ao nosso chamado. Ele foi muito violento, respondeu algumas palavras incoerentes e logo se atirou enfurecido sobre sua vítima, provocando-lhe violenta crise, logo acalmada pelo magnetizador.
Na segunda sessão, ocorrida poucos dias depois, pudemos reter por mais tempo o Espírito obsessor, que, no entanto, se mostrou sempre rebelde e muito cruel para com sua vítima. A terceira evocação foi mais feliz; o obsessor conversou familiarmente conosco; fizemo-lo compreender todo o mal que fazia, perseguindo essa infeliz mulher, mas ele não queria confessar seus erros e dizia que a fazia pagar uma velha dívida. Na quarta evocação orou conosco e se queixou por ter sido trazido a nós contra sua vontade; queria vir, mas de moto próprio. Foi o que fez na sessão seguinte. Pouco a pouco, a cada nova evocação, exercíamos maior domínio sobre ele e acabamos por fazê-lo renunciar ao mal que, desde a quarta sessão, vinha diminuindo; na nona, tivemos a satisfação de ver as crises cessarem. De cada vez uma magnetização de 12 a 15 minutos acalmava totalmente Rose e a deixava num estado de perfeita tranqüilidade.
Desde o mês de agosto – há nove meses, portanto – a doente não teve mais crises, e suas ocupações não foram interrompidas. Apenas uma vez ou outra ela sofria ligeiros abalos, em conseqüência de alguma contrariedade que não podia dominar; mas eram como relâmpagos sem tempestade, praticamente para lhe demonstrar que não devia esquecer os bons hábitos que tinha contraído para com Deus e os seus semelhantes. É preciso dizer também que ela contribuiu poderosamente para a cura, por sua fé, seu fervor e sua confiança no Criador, e pela moderação de um caráter naturalmente irritável. Tudo isto contribuiu para que o obsessor se enchesse de coragem, pois não a tinha bastante para tomar resolutamente o bom caminho; temia as provações que teria de sofrer para merecer o perdão. Mas, graças a Deus, e com o poderoso auxílio de nossos bons guias, já está no bom caminho e faz tudo o que pode para ser perdoado. Hoje, é ele que dá bons conselhos àquela a quem perseguiu por tanto tempo e que é agora robusta e alegre, como se nada tivera. Contudo, de oito em oito dias ela vem submeter-se a uma magnetização e, de vez em quando, evocamos seu antigo perseguidor, para o fortalecer em suas boas resoluções. Eis a sua última comunicação, dada em 19 de abril de 1865: Eis-me aqui. Venho agradecer vossa boa perseverança para comigo. Sem vós, sem esses Espíritos bons e benevolentes, aqui presentes, eu jamais teria conhecido a felicidade que agora sinto; ainda me arrastaria no mal, na miséria. Oh! sim, miséria, porque não se pode ser mais infeliz do que eu era; sempre a fazer o mal e sempre desejoso de o fazer! Quantas vezes, ah! vos disse que não sofria! Só agora vejo quanto sofria. Neste mesmo instante ainda sinto esses sofrimentos, mas não como antes; hoje é o arrependimento e não a incessante vontade de fazer o mal. Oh, não! que o Deus de bondade dele me preserve e que eu seja fortalecido para não mais recair na pena. Oh! não mais essas torturas; não mais esses males causticantes que não deixam à alma nenhum momento de repouso. Isto é bem o inferno, que está com aquele que faz o mal, como eu fazia.
Fiz o mal por ressentimento, por vingança, por ambição! O que lucrei com isto? Ai! repelido pelos Espíritos bons, não os podia compreender quando se aproximavam de mim e eu escutava suas vozes, porque não me era permitido vê-los. Não! hoje Deus permitiu; é por isto que sinto um bem-estar que jamais experimentei; porque, a despeito de sofrer bastante, entrevejo o futuro e suporto meus sofrimentos com paciência e resignação, pedindo perdão a Deus e assistência aos Espíritos bons para aquela a quem persegui por tanto tempo. Que ela me perdoe; dia virá, e talvez não custe, em que lhe poderei ser útil.
Termino agradecendo e vos pedindo que continueis a me favorecer com as vossas preces e com a amizade que me testemunhastes, e me perdoando pelo trabalho que vos dei. Oh!
obrigado, obrigado! Não podeis saber quanto o meu Espírito é grato pelo bem que me fizestes. Rogai a Deus que me perdoe e aos Espíritos bons para que estejam comigo, a fim de me ajudarem e me fortalecerem. Adeus.