Capítulo 6
Não permitas, ó Eterno Benfeitor, que nosso coração se enrijeça, ainda mesmo diante da suprema perversidade!… Não desconhecemos que as moléstias da alma são mais aflitivas e mais graves que as doenças da carne… Enche-nos, desse modo, de infatigável compaixão para que sejamos fiéis instrumentos de teu amor!… “Permite que teus prepostos nos amparem as decisões nos compromissos por assumir. “Não nos relegues à fraqueza que nos é peculiar. Dá-nos, Cristo de Deus, a tua inspiração de amor e luz!…” Nesse instante, ainda mesmo que o tom de voz não anunciasse o fim da oração, o generoso amigo não conseguiria continuar, porque a emoção lhe estrangulava a prece na garganta. Todos chorávamos, contagiados por suas lágrimas abundantes… Quem era Druso, afinal, para entregar-se daquele modo à oração, como se ele próprio fosse, entre nós, o maior dos torturados? Não tive tempo para estender qualquer consideração, porquanto, respondendo ao apelo ardente que ouvíramos, extensa massa de vaporosa neblina cobriu a face do espelho próximo. Fixei-a, admirado, e pareceu-me identificar largo floco de névoa primaveril a distender-se, alva e móvel. Extáticos e felizes, vimos emergir da leitosa nuvem a figura respeitável de um homem aparentemente envelhecido na forma, revelando, porém, a mais intensa juvenilidade no olhar. Vasta auréola de safirino esplendor coroava-lhe os cabelos brancos que nos infundiam inexcedível respeito, a derramar-se em sublimes cintilações na túnica simples e acolhedora que lhe velava o corpo esguio. No semblante nobre e calmo, vagava um sorriso que não chegava a fixar-se. Após um minuto de silenciosa contemplação, levantou a destra, que despediu grande jorro de luz sobre nós, e saudou: — A paz do Senhor seja conosco. Havia tanta doçura e tanta energia, tanto carinho e tanta autoridade naquela voz, que procurei guardar o melhor governo das emoções para não cair de joelhos. — Ministro Sânzio, — exclamou Druso, reverente, — bendita seja a sua presença entre nós. A claridade a irradiar-se do venerável visitante e a dignidade com que se nos revelava, impunham-nos fervoroso respeito; entretanto, como querendo desfazer a impressão de nossa inferioridade, o Ministro, surpreendentemente materializado, mantendo o campo vibratório em que nos encontrávamos, avançou para nós, estendeu-nos as mãos num gesto paternal e colocou-nos à vontade. Não desejava cerimônias, — acrescentou, entre afetuoso e convincente. Em seguida, demonstrando o valor das horas, recomendou ao diretor apresentasse os processos em estudo. Com admiração, vi Druso exibir os documentos solicitados: vinte e duas fichas de largo tamanho, cada qual condensando a síntese das informações necessárias ao socorro de vinte e duas entidades, recentemente internadas na instituição. Naquele momento, não pude ensaiar qualquer pergunta direta; todavia, mais tarde, Silas esclareceu-me que Sânzio, investido nas elevadas funções de Ministro da Regeneração [de Nosso Lar], retinha grandes poderes sobre aquela casa de reajuste, com o direito de apoiar ou determinar qualquer medida, referente à obra assistencial, em benefício dos sofredores, podendo homologar e ordenar providências de segregação e justiça, reencarnação e banimento. O emissário, atento, examinou todos os autos ali expressos em rápidas súmulas, das quais transpareciam, não apenas informes escritos, mas também microfotografias e recursos de identificação que lembram os elementos dactiloscópicos da Terra, aceitando ou não as sugestões de Druso, depois de ligeiras considerações em torno de cada caso particular, apondo em cada ficha o selo que lhe assinalava a responsabilidade das decisões. Adventícios no ambiente, sentíamo-nos estranhos a todos os estudos e deliberações efetuados, menos, porém, quanto ao derradeiro processo em lide, que se reportava justamente a Antônio Olímpio, o internado da véspera, a cujo despertar assistíramos. A presteza com que os dados do ex-fazendeiro haviam sido relacionados era de causar o maior espanto. Convidados pelo Instrutor a compulsá-los, porque percebia ele a importância de que o assunto se revestia para nós, Hilário e eu reconhecemos-lhe o retrato e a legitimidade das declarações que prestara sob a influência magnética a que fora submetido. Interessando-nos vivamente pela solução do problema, ouvimos a palavra do Ministro, que concordava com o parecer da casa quanto à conveniência de socorro imediato ao irmão infeliz e breve reencarnação dele no círculo em que delinquira, a fim de restituir, aos irmãos espoliados, os sítios de que haviam sido expulsos. Acentuou, contudo, que o criminoso, conforme as alegações dele mesmo, não desfrutava qualquer atenuante das culpas que lhe eram imputadas. Antônio Olímpio, — concordou o dirigente da casa, — vivera para si, entregue a desvairada egolatria. Não conhecera senão as suas conveniências. Conservara no mundo o dinheiro e o tempo, sem benefícios para ninguém que não fosse ele próprio. Isolara-se em prazeres perniciosos e, por isso, não trouxera ao campo espiritual a gratidão alheia funcionando em seu favor, porquanto, em matéria de apoio afetivo, dispunha somente da simpatia a nascer no quadro diminuto em que se lhe encerrava o estreito mundo familiar. Era, pois, um companheiro realmente complexo, com extremas dificuldades para ser auxiliado no retorno à experiência física. O magnânimo mensageiro, entretanto, recordou que a esposa e o filho lhe eram devedores de insuperável carinho. Esses dois corações surgiam, ali, segundo a Lei, como valores benéficos para o delinquente, porque todo bem realizado, com quem for e seja onde for, constitui recurso vivo, atuando em favor de quem o pratica. Resumindo as conclusões suscitadas, notificou à pequena assembleia que pediria o comparecimento da irmã Alzira, para que se manifestasse com alusão às medidas em andamento, abstendo-se de qualquer apelo imediato ao irmão Luís, o filho favorecido pela fortuna indébita, por encontrar-se internado no corpo físico, apelo esse que somente se justificaria em condições excepcionais. Confiou-se o Ministro à prece silenciosa e, respondendo-lhe à petição, notamos que a tênue matéria justaposta ao espelho se movimentava, de leve, dando passagem agora a uma figura suave de linda mulher. A irmã Alzira revelava-se-nos ao olhar. Parecia integrada na experiência da hora em curso, porquanto não demonstrava qualquer surpresa. Saudou-nos com graciosa gentileza e, às primeiras interpelações de Sânzio, respondeu, humilde: — Venerável benfeitor, compreendo a difícil posição de meu antigo companheiro nos compromissos assumidos e ofereço-me de boa vontade para coadjuvar-lhe o serviço restaurador. Aliás, venho suspirando por essa possibilidade que significa para mim valiosa bênção. Antônio Olímpio terá sido um carrasco dos próprios irmãos, aniquilando-lhes o corpo para usurpar-lhes os haveres; contudo, para meu filho e para mim foi sempre um amigo e um protetor, abnegado e queridíssimo. Ajudá-lo a reerguer-se, para a minha alma não é apenas dever, mas também inexprimível felicidade… O Ministro fitou-a, satisfeito, como se não lhe esperasse outra resposta, e ponderou: — Sabes, no entanto, que os irmãos assassinados perseveram no ódio e perseguiram-no, até agora, sem tréguas… — Sim, sei tudo isso, — aclarou a simpática senhora, — conheço-lhes o poder vingador… Arrebataram meu esposo da quietação do túmulo para se saciarem no desforço terrível e nunca me permitiram qualquer aproximação com ele, no vale de trevas em que se demoram por tantos anos… Além disso, ressarcindo meus débitos do passado, sucumbi por minha vez às mãos deles dois, em tremenda obsessão, no mesmo lago em que perderam o corpo físico. Isso, porém, não é motivo para recuo. Estou pronta para o serviço em que possa ser útil. Meditou Sânzio alguns instantes rápidos e aduziu: — A recuperação de Olímpio, para a reencarnação, exigirá tempo. Contudo, podes, com o auxílio deste pouso, iniciar a obra socorrista… E, à frente da atitude expectante da esposa abnegada, continuou: — As vítimas de ontem, hoje transformadas em verdugos enrijecidos, moram na herdade que lhes foi arrebatada pelo irmão fratricida, alimentando o ódio contra os seus descendentes e conturbando-lhes a vida. É necessário que vás em pessoa suplicar-lhes melhores disposições mentais para que se habilitem ao amparo de nossa organização, preparando-se para o renascimento físico em época oportuna. Conseguida essa fase inicial de assistência, colaborarás na volta de Olímpio ao lar do próprio filho, e, por tua vez, tornarás à carne, logo após, a fim de que de novo te consorcies com ele, em abençoado futuro, para que recebas nos braços Clarindo e Leonel, por filhos do coração, aos quais Olímpio restituirá a existência terrestre e os haveres… Um sorriso de ventura brilhou no semblante da sublime mulher e, talvez porque enunciasse pensamentos de temor, Sânzio acudiu-a, exclamando: — Não desfaleças. Serás sustentada por esta Mansão, em todos os teus contatos com os nossos amigos fixados na vingança e atenderemos pessoalmente a todos os assuntos que se refiram à transferência de tuas atividades para este sítio, perante as autoridades a que te subordinas. Nossos irmãos infortunados não estarão insensíveis aos teus rogos… Sofreste-lhes impiedosos golpes nos derradeiros dias de tua permanência no mundo e a humildade dos que sofrem é fator essencial na renovação dos que fazem sofrer… A digna criatura, em lágrimas de jubiloso reconhecimento, osculou-lhe a destra e afastou-se.
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Nome do Capítulo No círculo de oração