Conferências do Sr. Trousseau, Professor da Faculdade de Medicina
“Eu lhe disse: ‘Meu caro Béranger, sou vosso médico há oito anos. Hoje vou cobrar os meus honorários. – Que honorários? – Far-me-eis uma canção e a dedicareis a mim, mas eu vou dar o refrão. – Ah! sim!... e o refrão? – Ah! como as pessoas ladinas são tolas!’ – Combinamos que doravante não mais falaríamos do sacerdote polonês. Não é triste ver um homem como Béranger, a quem eu contava tais coisas, não compreender que seu protegido podia fazer muito mal e era absolutamente incapaz de obrar fosse o que fosse de útil pelas mais simples doenças dos olhos?” Parece que Béranger não estava muito convencido da infalibilidade dos doutores diplomados e podia repetir o refrão: Ah! como as pessoas ladinas são tolas! “Como vedes, senhores, as pessoas inteligentes são as primeiras que se deixam apanhar. Lembrai-vos do que se passava no fim do século passado. – Um curandeiro alemão emprega a eletricidade, ainda mal conhecida naquela época. Submete algumas mulheres delicadas à ação do fluido; ocorrem pequenos acidentes nervosos, que ele atribui a um fluido emanado de si próprio; estabelece uma teoria bizarra, na época chamada mesmerismo. Vem a Paris, instalando-se na Praça Vendôme, no centro da cidade, onde as pessoas mais ricas, pertencentes à aristocracia mais elevada da capital, vêm se postar em torno da cuba de Mesmer. Eu não saberia dizer quantas curas foram atribuídas a Mesmer, que, aliás, é o inventor e o importador, entre nós, desta maravilha que se chama sonambulismo, isto é, uma das mais vergonhosas chagas do empirismo. “Que vos direi, com efeito, do sonambulismo? Moçoilas histéricas, geralmente perdidas, em conúbio com qualquer charlatão famélico, simulando o êxtase, a catalepsia, o sono e, com a mais ridícula segurança, exibindo mais inépcias do que se poderia imaginar, inépcias bem pagas, bem aceitas, acreditadas com uma fé mais robusta que os conselhos do clínico mais esclarecido.” Para que serve a inteligência, se as pessoas inteligentes são as primeiras a se deixarem apanhar? Que é preciso para não se deixar apanhar? Ser sábio? – Não. – Ser membro do Instituto? – Não, já que um bom número deles tem a fraqueza de preferir os charlatães aos seus confrades. É o Sr. Trousseau quem no-lo diz. – Ser médico? – Também não, pois muitos também se dão ao absurdo do magnetismo. – Que é, então, necessário para ter bom-senso? – Ser o Sr. Trousseau. Sem dúvida o Sr. Trousseau é livre para externar a sua opinião, para crer ou não no sonambulismo. Mas não será ultrapassar os limites da boa educação tratar todas as sonâmbulas como moçoilas perdidas, em conúbio com charlatães? Que nisto, como em tudo, haja abusos, é inevitável, dos quais a própria medicina oficial não está isenta. Sem dúvida há simulacros de sonambulismo, mas, pelo fato de haver falsos devotos, pode-se dizer que não haja verdadeira devoção? O Sr. Trousseau ignora que entre os sonâmbulos profissionais há mulheres casadas e muito respeitáveis; que o número das que não se põem em evidência é muito maior? Que as há nas famílias mais honradas e mais altamente colocadas? Que muitos médicos, devidamente diplomados, de um saber incontestável, são hoje campeões declarados do magnetismo, que empregam com sucesso numa porção de casos rebeldes à medicina tradicional? Não tentaremos fazer o Sr. Trousseau mudar de opinião, provando-lhe a existência do magnetismo e do sonambulismo, pois é provável que perderíamos nosso tempo. Aliás, não é esta a nossa intenção. Diremos, porém, que se a zombaria e o sarcasmo são armas pouco dignas da Ciência, é ainda mais indigno que ela arraste na lama uma ciência hoje espalhada no mundo inteiro, reconhecida e praticada pelos homens mais distintos e atirar sobre os que a professam os insultos mais grosseiros que se possam encontrar no vocabulário da injúria. Só podemos lamentar ouvir expressões de tal trivialidade, feitas para inspirar desgosto, descendo das cátedras do ensino. Vós vos admirais que inépcias, como vos apraz chamar, sejam acreditadas com uma fé muito mais robusta que os conselhos do clínico mais esclarecido. A razão disto está na inumerável quantidade de erros cometidos pelos clínicos mais esclarecidos, dos quais citaremos dois exemplos. Uma senhora de nosso conhecimento tinha um filho de quatro a cinco anos, acometido de um tumor no joelho, em conseqüência de uma queda. O mal se tornou tão grave que ela resolveu consultar uma celebridade médica, que opinou pela amputação do membro, julgada urgente e indispensável, para salva a vida da criança. A mãe era sonâmbula. Não podendo decidir quanto à operação, cujo resultado era duvidoso, resolveu tratar ela própria. Ao cabo de um mês a cura era completa. Um ano depois, com o filho já forte e sadio, ela foi ver o médico e lhe disse: “Eis o menino que, em vossa opinião, deveria morrer se não lhe cortassem a perna. – Que quereis? Respondeu ele, a Natureza tem recursos tão imprevistos!” O outro caso é pessoal. Há cerca de dez anos fiquei quase cego, a ponto de não poder ler nem escrever e não reconhecer uma pessoa a quem desse a mão. Consultei as notabilidades da Ciência, entre outras o Dr. L..., professor de clínica para as moléstias dos olhos. Depois de um exame muito atento e consciencioso, declarou que eu sofria de uma amaurose e que devia resignar-me. Fui ver uma sonâmbula, que me disse que não era amaurose, mas uma apoplexia nos olhos, que poderia degenerar em amaurose se não fosse tratada adequadamente. Declarou responder pela cura. Em quinze dias, disse ela, experimentareis uma discreta melhora; em um mês começareis a ver e, dentro de dois ou três meses, estareis curado. Tudo se passou como ela previra e hoje minha visão está completamente restabelecida. O. Sr. Trousseau continua: “Ainda hoje tendes um americano que evoca os Espíritos, fazendo falar Sócrates, Voltaire, Rousseau, Jesus-Cristo e quem se queira! Em que lugares? Nas espeluncas de alguns bêbados?” A escolha de expressões do professor é realmente notável. “Não; ele os faz falar nos palácios, no Senado, nos mais aristocráticos salões de Paris. Há pessoas honradas que dizem: ‘Mas eu vi; recebi um tapa de uma mão invisível; a mesa elevou-se até o teto!’ Eles vo-lo dizem e repetem. E durante sete ou oito meses os Espíritos batedores maravilharam os homens, espantaram as mulheres e lhes provocaram ataques nervosos. Esta estupidez tem nome; esta estupidez que o homem mais grosseiro teria vergonha de aceitar foi aceita por gente esclarecida e, pior ainda, pelas classes elevadas da sociedade de Paris.” O Sr. Trousseau poderia acrescentar: e do mundo inteiro. Ele parece ignorar que essa estupidez sem nome não durou sete ou oito meses, mas dura sempre e se propaga cada vez mais por toda parte; que a evocação dos Espíritos não é privilégio de um americano, mas de milhares de pessoas de ambos os sexos, de todas as idades e de todos os países. Em boa lógica, até o presente a adesão das massas e das pessoas esclarecidas tinha sido considerada como de certo valor. Parece que já não é o caso e que a única opinião sensata é a do Sr. Trousseau e dos que pensam como ele. Quanto aos outros, seja qual for a sua categoria, a sua posição social, a sua instrução, morem em palácios e tenham assento nas primeiras posições do Estado, estão abaixo do mais grosseiro dos homens, visto que o homem mais grosseiro teria vergonha de aceitar suas idéias. Quando uma opinião se encontra tão espalhada quanto a do Espiritismo, quando, em vez de diminuir, progride com uma rapidez que beira o prodígio, quando é aceita pela elite da sociedade, se for falsa e perigosa é necessário opor-lhe um dique, combatê-la com provas contrárias. Ora, parece que o Sr. Trousseau não tem outro argumento a opor senão este: “Ah! como as pessoas ladinas são tolas!” Necrologia
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Mês Agosto
Ano 1862