A Geração Espontânea e A Gênese
Os partidários e os adversários se opõem reciprocamente experiências que deram resultados contrários; mas estes últimos esquecem que o fenômeno não pode produzir-se senão em condições adequadas de temperatura e aeração; buscando obtê-las fora dessas condições, devem necessariamente fracassar. Sabe-se, por exemplo, que para a eclosão artificial dos ovos, há necessidade de uma determinada temperatura regular, e certas precauções minuciosas especiais. Quem negasse tal eclosão porque não a tivesse obtido com alguns graus a mais ou a menos, e sem as precauções necessárias, estaria no mesmo caso daquele que não obtém a geração espontânea num meio impróprio. Parece-nos, pois, que se essa geração se produziu forçosamente nas primeiras idades do globo, não há razão para que não se produza em nossa época, se as condições forem as mesmas, como não há razão para que não se formem calcários, óxidos, ácidos e sais, como no primeiro período. Hoje é reconhecido que as rugosidades do mofo constituem uma vegetação que nasce sobre a matéria orgânica chegada a certo grau de fermentação. O mofo nos parece ser o primeiro, ou um dos primeiros tipos da vegetação espontânea, e essa vegetação primitiva que se prolonga, revestindo formas diversas conforme o meio e as circunstâncias, nos dá os liquens, os musgos, etc. Querem um exemplo mais direto? Que são os cabelos, a barba e os pelos do corpo dos animais, senão uma vegetação espontânea? A matéria orgânica animalizada, isto é, contendo certa proporção de azoto, dá origem a vermes que têm todos os caracteres de uma geração espontânea. Quando o homem ou um animal qualquer está vivo, a atividade da circulação do sangue e o funcionamento incessante dos órgãos mantêm uma temperatura e um movimento molecular que impedem os elementos constitutivos dessa geração de se formarem e se reunirem. Quando o animal está morto, a parada da circulação e do movimento, e o abaixamento da temperatura num certo limite, produzem a fermentação pútrida e, em conseqüência, a formação de novos compostos químicos. É então que se vêem todos os tecidos subitamente invadidos por miríades de vermes que neles se repastam, sem dúvida para apressar a sua destruição. Como seriam procriados, visto que antes não havia seus traços? Objetarão, sem dúvida, que são os ovos das moscas na carne morta. Mas isto nada provaria, porque os ovos das moscas são depositados na superfície, e não no interior dos tecidos, e porque a carne, posta ao abrigo das moscas, ao cabo de certo tempo não está menos apodrecida e cheia de vermes; muitas vezes, até, são vistos invadindo o corpo antes da morte, quando há um começo parcial de decomposição pútrida, notadamente nas feridas gangrenosas. Certas espécies de vermes se formam durante a vida, mesmo num estado de saúde aparente, sobretudo nos indivíduos linfáticos, cujo sangue é pobre e não têm a superabundância de vida, que se nota em outros; são as lombrigas ou vermes intestinais; as tênias ou vermes solitários, que por vezes atingem sessenta metros de comprimento e se reproduzem por fragmentos, como os pólipos e certas plantas; certos “vermes”, peculiares à raça negra e a certos climas, de um comprimento de trinta a trinta e cinco centímetros, delgados como um fio, e que saem através da pele pelas pústulas; os ascarídeos, os tricocéfalos, etc. Muitas vezes formam massas tão consideráveis que obstruem o canal digestivo, sobem ao estômago e até à boca; atravessam os tecidos, alojam-se nas cavidades ou em torno das vísceras, enovelam-se como ninhos de lagarta e causam graves desordens na economia. Sua formação bem podia ser devida a uma geração espontânea, tendo sua fonte num estado patológico especial, na alteração dos tecidos, no enfraquecimento dos princípios vitais e nas secreções mórbidas. Poderia dar-se o mesmo com os vermes do queijo, com o ácaro da sarna e com uma porção de animálculos que podem nascer no ar, na água e nos corpos orgânicos. Poder-se-ia supor, é verdade, que os germes dos vermes intestinais fossem introduzidos na economia com o ar que se respira e com os alimentos e que aí eclodissem. Mas, então, surge outra dificuldade: perguntar-se-ia por que a mesma causa não produz o mesmo efeito em todos; por que nem todo mundo tem solitária, nem mesmo lombrigas, quando a alimentação e a respiração produzem efeitos fisiológicos idênticos em todos. Esta explicação, aliás, não seria aplicável aos vermes da decomposição pútrida que surgem depois da morte, nem aos do queijo e tantos outros. Até prova em contrário, somos levados a considerá-los como sendo, ao menos em parte, um produto da geração espontânea, assim como os zoófitos e certos pólipos. A diferença de sexos que se reconheceu, ou que se julgou reconhecer em certos vermes intestinais, notadamente no tricocéfalo, não seria uma objeção concludente, levando-se em conta que não deixam de pertencer à ordem dos animais inferiores e, por isso mesmo, primitivos. Ora, como a diferença dos sexos deve ter tido um começo, nada se oporia a que nascessem espontaneamente macho ou fêmea. Aliás, aí não estão senão hipóteses, mas que parecem vir em apoio do princípio. Até onde se estende a sua aplicação? é o que não se poderia dizer. O que se pode afirmar é que ela deve ser circunscrita aos vegetais e aos animais de organização mais simples, e não nos parece duvidoso que assistamos a uma criação incessante.
TAG Valor
Mês Julho
Ano 1868