Consideremos, pois, o mundo dos Espíritos como uma réplica do mundo corporal, como uma fração da Humanidade, e digamos que não devemos desdenhar de ouvi-los, agora que estão desencarnados, pois não o teríamos feito quando encarnados; estão sempre em nosso meio, como outrora; apenas estão atrás da cortina, e não à frente: eis toda a diferença.
Mas, perguntarão, qual o alcance do ensino dos Espíritos, mesmo no que há de bom, se não ultrapassa o que os homens podem saber por si mesmos? É bem certo que não nos ensinam mais nada? No seu estado de Espírito não vêem o que não podemos ver? Sem eles, conheceríamos seu estado, sua maneira de ser, suas sensações? Conheceríamos, como hoje conhecemos, esse mundo onde talvez estejamos amanhã? Se esse mundo não tem para nós os mesmos terrores, se encaramos sem pavor a passagem que a ele conduz, não é a eles que o devemos? Esse mundo está completamente explorado? Diariamente ele não nos revela uma nova face? e nada é saber aonde se vai e o que se pode ser ao sair daqui? Outrora lá entrávamos tateando e estremecendo, como num abismo sem fundo; agora esse abismo é resplandecente de luz e nele se entra contente. E ainda ousam dizer que o Espiritismo nada nos ensinou? (Revista Espírita, agosto de 1865: “O que ensina o Espiritismo”).
Sem dúvida, o ensino dos Espíritos tem seus limites. Só se lhe deve pedir o que pode dar, o que está na sua essência, no seu objetivo providencial, e ele dá muito a quem sabe buscar. Mas, tal como é, já fizemos todas as suas aplicações? Antes de lhe pedir mais, sondamos as profundezas dos horizontes que nos descortina?
Quanto ao seu alcance, ele se afirma por um fato material, patente, gigantesco, inaudito nos fastos da História: é que apenas em sua aurora, já revoluciona o mundo e abala as forças da terra. Que homem teria tal poder?
O Espiritismo contribui para a reforma da Humanidade pela caridade. Não é, pois, de admirar que os Espíritos preguem a caridade sem cessar; eles a pregarão ainda por muito tempo, enquanto ela não houver extirpado o egoísmo e o orgulho do coração dos homens. Se alguns acham as comunicações inúteis, porque repetem incessantemente as lições de moral, devem ser cumprimentados, pois são bastante perfeitos para delas não mais necessitarem; mas devem pensar que os que não têm tanta confiança em seu próprio mérito e tomam a peito o se melhorarem não se cansam de receber bons conselhos. Não busqueis, pois, lhes tirar esse consolo.
Esta doutrina tem chances de prevalecer? Como dissemos, as comunicações dos Espíritos fundaram o Espiritismo.
Repeli-las depois de as haver aclamado, é querer sapar o Espiritismo pela base, arrancar seus alicerces. Tal não pode ser o pensamento dos espíritas sérios e devotados, porque seria absolutamente como aquele que se dissesse cristão negando o valor dos ensinamentos do Cristo, sob o pretexto de que sua moral é idêntica à de Platão. É nessas comunicações que os espíritas encontraram alegria, consolação, esperança; é por elas que compreenderam a necessidade do bem, da resignação, da submissão à vontade de Deus; é por elas que suportam com coragem as vicissitudes da vida; é por elas que não há mais separação real entre eles e os objetos de suas mais ternas afeições.
Não é enganar-se com o coração humano crer que ele possa renunciar a uma crença que faz a felicidade!
Repetimos aqui o que dissemos a propósito da prece: Se o Espiritismo deve ganhar em influência, é aumentando a soma das satisfações morais que proporciona. Que os que o acham insuficiente tal qual é se esforcem por dar mais que ele; mas não será dando menos, tirando o que faz o seu charme, a força e a popularidade que o suplantarão.