— Lamentou o rapaz, chorando.
— Não, Mário! Em ocasiões dessas, não é a coragem que nos falha e sim a humildade. Nosso orgulho neste mundo, apesar de inconsequente e vão, é por demais envolvente e excessivo. Não sabemos liberar a personalidade segregada no visco de nosso exagerado amor próprio. Em suma, aprisionamos o coração na escura fortaleza da vaidade e não sabemos ceder… Apegando-se ao socorro moral que lhe era lançado, o enfermeiro suplicou, pesaroso:
— Antonina, creio em sua amizade e na elevada compreensão que flui de suas palavras. Ajude-me! Não vim aqui senão rogar auxílio e discernimento. Exponha você mesma o que devo fazer. Dê-me um plano. Perdoe-me a intimidade, tenho sido um homem sem fé… Não tenho autoridades ou amigos para quem apelar… Não nos conhecemos senão há dias, mas encontrei em seu coração e em sua casa algo novo para meu pobre espírito… Suporte-me e ampare-me por amor de Deus, em cuja providência você crê com tanta sinceridade!… A jovem viúva, sentindo-se verdadeiramente irmã dele, acariciou-lhe as mãos quais se fossem velhos conhecidos, e agora, igualmente em lágrimas de emotividade e reconhecimento, convidou-o a visitarem juntos o casal sofredor, na noite seguinte. Confiaria Henrique e Lisbela aos cuidados de uma parenta e seguiriam para a residência de Amaro, em companhia de Haroldo. Desejava auxiliá-lo, a ele, Mário, na justa recuperação, e, para esse fim, estimaria acompanhá-lo, de maneira a ser mais útil. O moço aceitou a gentileza, exultante. Estava convencido de que, ao lado de Antonina, encontraria uma solução. Um sorriso de reconforto assomou-lhe aos lábios e foi assim que deixamos o enfermeiro atormentado, sob a eclosão de nova e abençoada esperança.