De duas uma: ou as pessoas que se reúnem nessa localidade se entregam a uma comédia indigna, ou são criaturas honradas, sinceramente espíritas. No primeiro caso, é prestar um grande serviço à doutrina desmascarar os que dela abusam ou que misturam seu nome a práticas ridículas. Os espíritas sinceros não podem senão aplaudir a tudo o que tende a desembaraçar o Espiritismo dos parasitas da má-fé, seja qual for a forma que se apresentem, pois jamais tomaram a defesa dos prestidigitadores e dos charlatães. No segundo caso, ele só pode ganhar com a repercussão que lhe dá uma perseguição apoiada em fatos controvertidos, porque excita as pessoas a se informarem do que ele é. Ora, o Espiritismo só pede para ser conhecido, muito certo de que um exame sério é o melhor meio de destruir as prevenções suscitadas pela malevolência dos que não o conhecem. Assim, não nos surpreenderíamos se essa escaramuça tivesse um resultado bem diverso do esperado por aqueles que a provocaram, e fosse a causa de uma recrudescência no número dos adeptos da localidade.
Assim tem sido em toda parte onde uma oposição um tanto violenta se manifestou.
Que fazer, então? perguntarão os adversários. Se não intervimos, o Espiritismo caminha; se agimos contra, ele marcha com mais vigor. – A resposta é muito simples: reconhecer que aquilo que não se pode impedir está na vontade de Deus, e o que há de melhor a fazer é deixá-lo passar.
Dois de nossos correspondentes, estranhos um ao outro, transmitiram-nos sobre estes fatos informações precisas e perfeitamente concordantes. Um deles, o Sr. Quômes de Arras, homem de ciência e distinto escritor, ao primeiro relato desses acontecimentos, referidos pelo jornal de Chartres, ignorando a causa do conflito, não quis precipitar-se em defender os fatos nem as pessoas, que abandonava à severidade da crítica, se o merecessem; mas tomou a defesa do Espiritismo. Numa carta cheia de moderação e de conveniência, dirigida ao jornal, ele se empenha em demonstrar que se os fatos fossem tais quais relatados pelo Sr.
Léon Gaubert, o Espiritismo nada teria a ver com isso, ainda mesmo que tivessem usado seu nome. Qualquer pessoa imparcial teria olhado como um dever dar oportunidade a uma retificação tão legítima. Não foi o que aconteceu, e as reiteradas instâncias não resultaram senão numa recusa formal. Isto se passava antes da carta de Grezelle, que, como se viu, devia ter a mesma sorte. Se o jornal temia levantar em suas colunas a questão do Espiritismo, não devia admitir a carta do Sr. Gaubert. Reservar-se o direito de atacar e recusar o de defesa, é um meio fácil, mas muito pouco lógico, de se dar razão.
O Sr. Quômes de Arras dirigiu-se àqueles lugares, a fim de ele próprio se dar conta do estado das coisas. Houve por bem enviar-nos um relato detalhado de sua visita. Lamentamos que a extensão desse documento não nos permita publicá-lo neste número, onde nem tudo o que nele devia estar pôde encontrar lugar. Resumimos suas principais conseqüências. Eis o que ele ficou sabendo em Illiers, junto a diversas pessoas honradas, estranhas ao Espiritismo.
Grezelle é um excelente pedreiro, proprietário em Certellerie. Longe de desarrazoar, todos os que o conhecem não podem senão fazer justiça ao seu bom-senso, aos seus hábitos de ordem, de trabalho, de regularidade. É um bom pai de família; seu único erro é inquietar os materialistas e os indiferentes da região por suas afirmações enérgicas, multiplicadas, sobre a alma, sobre suas manifestações após a morte e sobre os nossos destinos futuros. Ele está longe de ser, na região, o único partidário do Espiritismo, que aí conta, sobretudo em Brou, numerosos e devotados adeptos.
“Quanto às mulheres, que, segundo o Journal de Chartres, o Espiritismo teria enlouquecido ou arrastado a atos culposos, é pura invenção. O caso a que faz alusão é o de uma mexeriqueira muito conhecida em Illiers, dada à bebida, e cuja razão sempre foi fraca. Ela quer a Grezelle e fala mal dele, não se sabe por quê. Como as idéias espíritas circulam na região, delas deve ter ouvido falar e as mistura em suas próprias incoerências, mas dele jamais se ocupou seriamente. Quanto a ter querido afogar-se, tal pensamento nada teria de impossível, tendo em vista o seu estado habitual; mas o fato parece inventado.
De lá o Sr. Quômes de Arras foi a Certellerie, cinco quilômetros além de Illiers. “Lá chegando, diz ele, procurei a casa da Sra. Jacquet, cujo nome me haviam dito em Illiers. Ela estava no jardim com seu filho, em meio às flores, ocupada com trabalhos de agulha. Assim que soube o motivo de minha viagem, conduziu-me à sua casa, onde logo se juntaram a sua empregada, moça de vinte anos, médium falante e espírita fervorosa, Grezelle e seu filho mais velho, de vinte anos. Não foi preciso conversar muito com essas pessoas, para perceber que não me achava em relação com espíritos agitados, tristes, singulares, exaltados ou fanáticos, mas com pessoas sérias, razoáveis, benevolentes, de uma sociedade perfeita; franqueza, clareza, simplicidade, amor ao bem, tais eram os traços salientes que se pintavam em seu exterior, em suas palavras, e – confessarei para minha confusão – eu não esperava tanto.
“Grezelle tem quarenta e cinco anos, é casado e tem dois filhos; ambos são médiuns escreventes, como o pai. Contou-me calmamente os sofrimentos que suportava e as intrigas de que era objeto. A Sra. Jacquet também me disse que muitas pessoas, na região, alimentavam os piores sentimentos contra eles, porque são espíritas. Aos meus olhos pareceu muito provável, adquirindo depois a mais completa certeza de que essas diversas famílias são tranqüilas, benevolentes para com todos, incapazes de fazer mal a quem quer que seja, e sinceramente dedicadas a todos os seus deveres; dando graças aos céus, admirei a firmeza, a força de caráter, a solidez das convicções, o profundo apego ao bem dessas excelentes criaturas que, no campo, sem grande instrução, sem estímulo e sem recursos visíveis, cercadas de inimigos e de gracejadores, mantêm alto, há quatro anos, seus princípios, sua fé, suas esperanças. Para defender sua bandeira contra os risos, têm uma coragem que, infelizmente, muitas vezes falta aos nossos sábios das cidades, e até a muitos espíritas adiantados.
“Grezelle, o único que realmente foi maltratado, embora seja espírita há três anos, tem todo o fervor de um neófito, todo o zelo de um apóstolo e ainda toda a atividade exuberante de uma natureza ardente, enérgica e empreendedora. Em razão de seus negócios, está continuamente em contato com a população da região e, cheio do Espiritismo, amando-o mais que a vida, não pode impedir-se de falar nele, de o fazer ressaltar, de mostrar suas belezas, grandezas e maravilhas. De uma palavra realmente obstinada e forte, produz no meio dos indiferentes que o cercam o efeito do fogo na água. Como não leva em conta o tempo, nem as circunstâncias contrárias, poder-se-ia dizer que peca um pouco por excesso de zelo e, talvez, também por falta de prudência.”
No dia seguinte, à noite, o Sr. Quômes assistiu, em casa de Grezelle, a uma sessão espírita composta de 18 ou vinte pessoas, entre as quais se achava o prefeito, notabilidades do lugar, pessoas de notória honorabilidade, que certamente não teriam vindo a uma assembléia de loucos e de iluminados. Tudo aí se passou na maior ordem, com o mais perfeito recolhimento e sem o menor vestígio das práticas ridículas da magia e da feitiçaria. Começa-se pela prece, durante a qual todos se ajoelham. Às preces tiradas de O Evangelho segundo o Espiritismo, juntam-se a prece da noite e outras, tiradas do ritual ordinário da Igreja. “Nossos detratores, sobretudo os eclesiásticos, acrescenta o Sr. Quômes, talvez não tivessem notado, sem embaraço e sem admiração, o fervor destas almas sinceras e sua atitude recolhida, denotando profundo sentimento religioso.
Havia seis médiuns, dos quais quatro homens e duas mulheres, entre as quais a empregada da Sra. Jacquet, médium falante e escrevente. Em geral as comunicações são fracas de estilo, as idéias aí são prolixas e sem encadeamento; até algumas manias aparecem no modo de comunicação; mas, afinal de contas, nada há de mau, de perigoso e tudo quanto se obtém edifica, encoraja, fortalece, leva o espírito ao bem ou o eleva para Deus.”
O Sr. Quômes encontrou nesses espíritas a sinceridade e um devotamento a toda prova, mas também uma falta de experiência, que se esforçou em suprir por seus conselhos. O fato essencial que constatou é que nada em sua maneira de agir justifica o quadro ridículo feito pelo Journal de Chartres. Os atos selvagens que se passaram em Illiers foram, evidentemente, suscitados pela malevolência e parecem ter sido premeditados.
De nossa parte sentimo-nos felizes que assim seja, e cumprimentamos os nossos irmãos do cantão de Illiers pelos excelentes sentimentos que os animam.
Como dissemos, as perseguições são o quinhão inevitável de todas as grandes idéias novas, pois todas têm tido os seus mártires. Os que as suportam um dia serão felizes, por terem sofrido pelo triunfo da verdade. Assim, que perseverem sem desanimar e sem fraquejar, e serão sustentados pelos Espíritos bons que os observam; mas, também, que jamais renunciem à prudência que as circunstâncias exigem, evitando com cuidado tudo quanto possa provocar os nossos adversários. É no interesse da Doutrina.