A mente falida de Fabrício, experimentando insistentes remorsos e aflitivas preocupações, intoxicou esses centros vitais com a incessante emissão de energias corrutoras. Consequentemente, verificou-se o que em boa psiquiatria poderíamos designar por “lesão generalizada do sistema nervoso”. Tal desastre atingiu, em primeiro lugar, as sedes das conquistas mais recentes da personalidade, isto é, as células e os estímulos mais jovens, que se localizam nos lobos frontais e no córtex motor, inutilizando temporariamente o nosso amigo, para a meditação elevada e para o trabalho sadio, e obrigando-o a regredir, no terreno espiritual, para dentro de si mesmo. De mente estacionária agora, em plena região instintiva da individualidade, nosso enfermo ainda não se acha positivamente desequilibrado, graças à contínua assistência de nosso Plano. Calando-se o Assistente, ousei interrogar:
— Mas há esperança de reequilíbrio para breve?
— Absolutamente não. — Respondeu o interpelado, de maneira significativa; — no caso dele, funcionariam em vão as terapêuticas em uso. O Espírito delinquente pode receber os mais variados gêneros de colaboração, mas será imperiosamente o médico de si mesmo. A Justiça Divina exerce invariável ação, embora os homens não a identifiquem no mecanismo de suas relações ordinárias. Os criminosos podem, por muito tempo, escapar ao corretivo da organização judiciária do mundo; no entanto, mais cedo ou mais tarde, vaguearão, perante os seus irmãos em humanidade, em baixo terreno espiritual, representado no quadro de aflições punitivas. Para os familiares e amigos, Fabrício é um esquizofrênico, incapaz de resistir às aplicações do choque insulínico em virtude do coração frágil e cansado; todavia, para nós é um companheiro acidentado na ambição inferior, curtindo amargos resultados de seus propósitos de dominar egoisticamente na vida. Interrompendo-se o orientador, dei guarida a interrogações naturais no campo íntimo. Se o doente não oferecia perspectivas de melhoras substanciais, qual o objetivo de nossa assistência? Por que nos demorarmos à frente de um caso insolvível, qual aquele, pela impossibilidade de próximo reencontro entre o criminoso e suas vítimas? Calderaro não me deixou sem resposta.
— Estamos aqui, — elucidou, atencioso, — a fim de proporcionar-lhe morte digna. Não chegará a enlouquecer em definitivo. Com o nosso concurso fraterno, desencarnará antes do eclipse total da razão. E porque me mostrasse espantado, o prestimoso amigo acrescentou:
— Fabrício desposou uma criatura, por todos os títulos credora do amparo celestial, e essa mulher quase sublime deu-lhe três filhos, aos quais ele se consagrou nobremente, preparando-os para elevado ministério social. São eles, presentemente, dois professores e um médico, dedicados ao ideal superior de servir ao bem coletivo. Fabrício não tem o direito de perturbar a família organizada à sombra de seu amparo material, mas educada sem o seu personalismo despótico. Pelo serviço que prestou à esposa e aos filhos, recebe do Alto o socorro de agora, de maneira a transferir residência, por imposição da morte, preparado para o futuro de reajustamento. As preces da companheira e dos filhos garantem-lhe uma “boa morte” próxima, para a qual vamos organizando as suas energias e habituando pari passu a família a permanecer em missão ativa no bem sem a presença material dele. Silenciou o Assistente, dispondo-se a fazer-lhe aplicações magnéticas no aparelho circulatório. Demorou-se minutos longos administrando-lhe forças ao redor dos vasos mais importantes e, em seguida, desenvolveu passes longitudinais, destinados à quietação dos nervos. Ante minha admiração natural, Calderaro explicou-se:
— Preparamos acesso à trombose pela calcificação de certas veias. A desencarnação chegará suavemente, dentro de alguns dias, como providência compassiva, indispensável à felicidade do enfermo e de quantos lhe seguem de perto o martírio. O doente, mais calmo, parecia haver sorvido milagroso analgésico. Aquietou-se, descansando a cabeça nos travesseiros alvos. Dentro do silêncio que se fizera entre nós, indaguei, curioso:
— Considerando, no entanto, o decesso, em breves dias, como prosseguirá o processo de resgate do nosso amigo?
— A liquidação já começou, — redarguiu o instrutor, sereno.
— Como? Calderaro fez expressivo gesto e recomendou:
— Espera. Nesse mesmo instante, o enfermo acionou a campainha à cabeceira. A esposa atendeu, à pressa. Encontrou-o melhor e sorriu, feliz. O velho, mais tranquilo, rogou:
— Inês, posso ver o Fabricinho?
— Como não? — Respondeu a companheira delicadamente, — vou buscá-lo. Em poucos minutos, regressava trazendo um menino de seus oito anos. O pequeno atirou-se-lhe aos braços esqueléticos, com extremado carinho, e perguntou:
— Está melhor, vovô? O doente contemplou-o, enternecido, informando:
— Estou melhor, meu filhinho… Porque não veio de manhã?
— Vovó não deixou.
— Sim, é verdade; eu não me achava bem… A senhora retirou-se, para acompanhar a cena do outro lado da cortina. Avô e neto sentiram-se mais à vontade. Totalmente transfigurado com a presença do menino, nosso quase demente amigo suplicou:
— Fabricinho, eu desejo que você reze por mim… O petiz não se fez rogado. Ajoelhou-se ali mesmo e disse, respeitosamente, a oração dominical. Terminada a prece, o doente pediu, de olhos úmidos:
— Não se esqueça, meu filho, de orar por mim quando eu morrer. O menino, agora de pé, enlaçou-lhe o busto e exclamou, chorando discretamente:
— O senhor não morrerá!… Mostrando-se aliviado, o velhinho correspondeu ao gesto afetivo, fitou o neto e inquiriu, com estranho fulgor no olhar:
— Fabricinho, você acredita que Deus perdoa aos pecadores como eu? O pequeno respondeu, lacrimoso e confundido:
— Eu acho, vovô, que Deus perdoa todos nós. Revelando as ansiedades que lhe povoavam a alma, voltou à indagação:
— Mesmo a um homem que trai a confiança paterna e rouba aos irmãos? O netinho hesitou, incapaz de apreender toda a extensão daquela pergunta intencional; entretanto, no desejo de agradar ao doente, de qualquer modo, balbuciou com toda a simplicidade infantil:
— Eu penso que Deus perdoa sempre… — É o que eu pretendia saber, — acentuou o velhinho, mais confortado. A conversação entre ambos prosseguiu afetuosa e amena. Após detido exame, Calderaro apontou para a criança e esclareceu:
— Este menino é o ex-pai de Fabrício, que volta ao convívio do filho delinquente pelas portas benditas da reencarnação. É o único neto do enfermo e, mais tarde, assumirá a direção dos patrimônios materiais da família, bens que inicialmente lhe pertenciam. A Lei jamais dorme. Assombrado com a informação, remoí as perguntas que me afloravam, espontâneas. Como se redimiria, por sua vez, o velho Fabrício? Regressaria também, em dias futuros, àquele mesmo lar? Sofreria o desequilíbrio completo, depois da morte do corpo denso? Demorar-se-ia em perturbação? Calderaro, dando por findos nossos trabalhos de assistência na casa, sorriu para mim, preparou-se para a retirada e obtemperou:
— Nosso amigo enfermo, guardando na mente os resíduos da ação criminosa, logo após o abandono do domicílio fisiológico experimentará, por muito tempo, os resultados de sua queda, até que o sofrimento alije os elementos malignos que lhe intoxicam a alma. Quando esse serviço purgatorial estiver completo, então… — Regressará aos seus familiares?
— Inquiri, ansioso, ante a frase suspensa.
— Se o grupo consanguíneo atual houver elevado o padrão espiritual a luminosas culminâncias, será compelido a esforçar-se intensivamente pelo alcançar. Entretanto, jamais estará desamparado. Todos temos a imensa família, dentro da qual nos integramos desde a origem — a Humanidade. Nesse instante, abandonávamos o aposento suntuoso. Em breves segundos, tornávamos à Natureza, gozando a bênção do céu muito límpido. E enquanto o meu instrutor se refugiava em si mesmo, atento às responsabilidades do serviço, dei expansão a novos pensamentos, relativos à amplitude e à grandeza do império da justiça.