O Espiritismo em 1860
Vós todos que atacais o Espiritismo, quereis um meio seguro de o combater com sucesso? Eu vo-lo indico. Substituí-o por algo melhor; encontrai uma solução mais lógica a todas as questões que ele resolve; dai ao homem outra certeza que o torne mais feliz, e compreendei bem o alcance da palavra certeza, porque o homem só aceita como certo o que lhe parece lógico; não vos contenteis em dizer que isso não é, pois é muito fácil; provai, não pela negação, mas pelos fatos, que isso não é, jamais foi e não pode ser. Provai, finalmente, que as conseqüências do Espiritismo não tornam melhores os homens, pela prática da mais pura moral evangélica, moral muito elogiada, mas pouco praticada. Quando tiverdes feito isso, serei o primeiro a inclinar-me perante vós. Até lá, permiti que encare vossas doutrinas, que são a negação completa do futuro, como a fonte do egoísmo, verme que corrói a sociedade e, conseqüentemente, como um verdadeiro flagelo. Sim, o Espiritismo é forte, mais forte do que vós, porque se apóia nos próprios alicerces da religião: Deus, a alma e as penas e recompensas futuras, baseadas no bem e no mal que se faz. Vós vos apoiais na incredulidade. Ele convida o homem à felicidade, à esperança, à verdadeira fraternidade. Vós lhe ofereceis o nada como perspectiva e o egoísmo como consolação. Ele tudo explica, vós nada explicais. Ele prova pelos fatos e vós nada provais. Como pretendeis que se vacile entre as duas doutrinas? Em resumo, constatamos – e cada um vê e sente como nós – que o Espiritismo deu um passo imenso no ano que findou, e esse passo é a garantia daquele que haverá de dar no ano que começa. Não somente o número de seus partidários aumentou consideravelmente, como uma notável mudança operou-se na opinião geral, mesmo entre os indiferentes. Diz-se que no fundo de tudo isso bem poderia haver alguma coisa; que não se deve ser apressado em julgá-lo; os que assim agiam, dando de ombros, começam a temer o ridículo sobre si mesmos ao ligarem o próprio nome a um julgamento precipitado, que poderá ser desmentido. Deste modo, preferem calar-se e esperar. Sem dúvida, durante muito tempo ainda haverá pessoas que, nada tendo a perder com a opinião da posteridade, procurarão denegri-lo; umas, por caráter ou por estado de ânimo; outras, por cálculo. Mas nós nos acostumamos à idéia de ir ao hospício1, desde que nos vejamos em boa companhia; e, como tantas outras, esta piada sem graça torna-se um lugar-comum, com a qual ninguém se incomoda, porque no fundo desses ataques vê-se a mais absoluta falta de raciocínio. A arma do ridículo, essa arma que se diz tão terrível, se gasta evidentemente e tomba das mãos daqueles que a empunhavam. Acaso teria perdido o seu poder? Não, contanto que não desfira golpes em falso. O ridículo não mata senão o que é ridículo em si, tendo de sério apenas a aparência, porque fustiga o hipócrita e lhe arranca a máscara; mas aquilo que é verdadeiramente sério só receberá golpes passageiros e sairá sempre triunfante da luta. Vede se uma só das grandes idéias que foram ridicularizadas em sua origem pela turba ignorante e invejosa caiu para não mais se erguer! Ora, o Espiritismo é uma das maiores idéias, porque toca na questão mais vital – a da felicidade do homem – e não se brinca impunemente com semelhante problema. Ele é forte porque tem suas raízes nas próprias leis da Natureza e responde aos inimigos fazendo, desde o início, a volta ao mundo. Alguns anos mais e seus detratores, impotentes para o combater pelo raciocínio, encontrar-se-ão de tal modo ultrapassados pela opinião dominante, de tal forma isolados, que se verão forçados a calar ou a abrir os olhos à luz.
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Mês Janeiro
Ano 1860