Capítulo 23
As imperfeições morais do obsidiado constituem, quase sempre, um obstáculo à sua libertação. Eis um exemplo notável, que pode servir para a instrução de todos: Havia já alguns anos que várias irmãs vinham sendo vítimas de depredações muito desagradáveis. Suas roupas eram incessantemente espalhadas em todos os cantos da casa e até pelos telhados, cortadas, rasgadas e crivadas de buracos, por mais cuidado que tivessem em guardá-las à chave. Essas senhoras, vivendo numa pequena localidade do interior, nunca tinham ouvido falar de Espiritismo. A primeira ideia que lhes acorreu foi, naturalmente, a de que estavam sendo alvo de brincalhões de mau gosto. Porém, a persistência e as precauções que tomavam afastaram delas essa ideia. Só muito tempo depois, por meio de algumas indicações, acharam que deviam procurar-nos para saberem a causa de tais transtornos e, se possível, os remédios para dar-lhes um fim. Sobre a causa não havia dúvida; quanto ao remédio, era mais difícil. O Espírito que se manifestava por semelhantes atos era evidentemente malfazejo. Ao ser evocado, mostrou-se de grande perversidade e inacessível a qualquer sentimento bom. A prece, no entanto, pareceu exercer sobre ele uma influência salutar. Mas, após algum tempo de interrupção, recomeçaram as depredações. Eis a respeito o conselho que nos deu um Espírito superior: “O que essas senhoras têm de melhor a fazer é orar aos Espíritos seus protetores para que não as abandonem. Não lhes posso dar nenhum conselho melhor do que lhes dizer que desçam ao fundo de suas consciências para se confessarem a si mesmas, examinando se sempre praticaram o amor ao próximo e a caridade. Não me refiro à caridade que consiste em dar e distribuir, mas à caridade da língua, porque, infelizmente, elas não sabem conter as suas, nem demonstram, por atos de piedade, o desejo que têm de se livrarem daquele que as atormenta. Gostam muito de falar mal do próximo e o Espírito que as obsidia tira a sua desforra, porque, em vida, foi para elas um alvo de gracejos. Basta que pesquisem na memória e logo descobrirão com quem estão lidando. “Entretanto, se conseguirem melhorar-se, seus anjos da guarda se aproximarão e a simples presença deles bastará para afastar o Espírito mau, que só se agarrou a uma delas em particular porque o seu anjo guardião teve que se afastar, em virtude de atos repreensíveis ou maus pensamentos. O que elas precisam é fazer preces fervorosas pelos que sofrem e, principalmente, praticar as virtudes que Deus impõe a cada criatura, de acordo com a sua condição.” Como alegássemos que essas palavras pareciam um tanto severas, e que talvez fosse conveniente abrandá-las, para serem transmitidas, o Espírito acrescentou: “Devo dizer o que digo e como digo, porque as pessoas em questão têm o hábito de supor que não fazem mal nenhum com a língua, quando na verdade o fazem bastante. É por isso que precisamos ferir-lhes o Espírito, de modo que lhes sirva de advertência séria”. De tudo quanto foi dito acima, tiramos um ensinamento de grande importância: o de que as imperfeições morais dão ensejo à ação dos Espíritos obsessores, e que o meio mais seguro de nos livrarmos deles é atrair os bons pela prática do bem. Sem dúvida, os Espíritos bons têm mais poder do que os maus, e basta a vontade deles para afastar estes últimos; os bons, porém, só assistem os que os ajudam, mediante os esforços que fazem por melhorar-se. A não ser assim, afastam-se e deixam o campo livre aos Espíritos maus, que, em certos casos, se tornam instrumentos de punição, visto que os bons permitem que eles ajam para esse fim.
TAG Valor
Parte Segunda
Nome do Capítulo Obsessão
Tema Meios de combater a obsessão
Item 252