XX – Três coisas indispensáveis no círculo de abred: a transgressão da lei, visto não poder ser de outro modo; a liberação pela morte ante Droug e Cythraul; o crescimento da vida e do bem pelo afastamento de Droug na liberação da morte; e isso pelo amor de Deus, que abrange todas as coisas.
XXI – Três meios eficazes de Deus em abred para dominar Droug e Cythraul e superar sua oposição em relação ao círculo de gwynfyd : a necessidade, a perda da memória e a morte.
XXII – Três coisas são primitivamente contemporâneas: o homem, a liberdade e a luz.
XXIII – Três coisas necessárias ao triunfo do homem sobre o mal: a firmeza contra a dor, a mudança, a liberdade de escolha; e com o poder que o homem tem de escolher, não se pode saber antecipadamente para onde irá.
XXIV – Três alternativas oferecidas ao homem: abred e gwynfyd, necessidade e liberdade, mal e bem, o todo em equilíbrio, e pode o homem à vontade ligar-se a um ou outro.
XXV – Por três coisas cai o homem sob a necessidade de abred: pela ausência de esforço para o conhecimento, pela não ligação ao bem e pela vinculação ao mal. Em conseqüência dessas coisas, desce em abred até o seu análogo e recomeça o curso de sua transmigração.
XXVI – Por três coisas retorna o homem necessariamente em abred, se bem que, em outros sentidos esteja ligado ao que é bom: pelo orgulho, cai até em annoufn pela falsidade, até o ponto do demérito equivalente; e pela crueldade, até o grau correspondente de animalidade. Daí transmigra novamente para a humanidade, como antes.
XXVII – As três coisas principais a obter no estado de humanidade: a ciência, o amor, a força moral, no mais alto grau possível de desenvolvimento, antes que sobrevenha a morte. Isso não pode ser obtido anteriormente ao estado de humanidade, e não o pode ser senão pelo privilégio da liberdade e da escolha. Essas três coisas são chamadas as três vitórias.
XXVIII – Há três vitórias sobre Croug e Cythraul: a ciência, o amor e a força moral; porque o saber, o querer e o poder realizam o que quer que seja em sua conexão com as coisas. Essas três vitórias começam na condição de humanidade e se demoram eternamente.
XXIX – Três privilégios da condição do homem: o equilíbrio do bem e do mal e, daí, a faculdade de comparar; a liberdade na escolha e, daí, o julgamento e a preferência; e o desenvolvimento da força moral em conseqüência do julgamento e, daí, a preferência.
Essas três coisas são necessárias à realização do que quer que seja.
“Assim, em resumo, o princípio dos seres no seio do Universo dá-se no mais baixo ponto da escala da vida; e, se não é levar muito longe as conseqüências da declaração contida na vigésima sexta tríade, pode-se conjeturar que na doutrina druídica o ponto inicial estava supostamente no abismo confuso e misterioso da animalidade. Daí, conseqüentemente, desde a própria origem da história da alma, a necessidade lógica do progresso, uma vez que os seres não são por Deus destinados a permanecer numa condição tão baixa e tão obscura. Todavia, nos estágios inferiores do Universo, esse progresso não se desenvolve segundo uma linha contínua; essa longa vida, nascida tão baixo para elevar-se tanto, rompe-se em fragmentos solitários na base de sua sucessão, mas, graças à falta de memória, sua misteriosa solidariedade escapa, pelo menos por algum tempo, à consciência do indivíduo. São essas interrupções periódicas no curso secular da vida que constituem o que chamamos morte; de sorte que a morte e o nascimento, em uma visão superficial, formam acontecimentos tão diversos que não são, na realidade, mais que duas faces do mesmo fenômeno, uma voltada para o período que se acaba, a outra para o que se inicia.
“Considerada em si mesma, a morte não é uma calamidade verdadeira, mas um benefício de Deus que, rompendo os hábitos estreitíssimos que havíamos contraído com nossa vida presente, transporta-nos a novas condições e dá lugar, desse modo, a que nos elevemos mais livremente a novos progressos.
“Assim como a morte, a perda de memória que a acompanha deve ser tomada também como um benefício. É uma conseqüência do primeiro ponto. Porque se a alma, no curso dessa longa vida, conservasse claramente suas lembranças de um período a outro, a interrupção não seria mais que acidental e não haveria nem morte propriamente dita, nem nascimento, visto que esses dois acontecimentos perderiam, desde então, o caráter absoluto que os distingue e lhes dá força. E, até mesmo do ponto de vista dessa teologia, não parece difícil perceber até que ponto a perda da memória pode ser considerada um benefício, no que concerne aos períodos passados, em relação ao homem em sua condição presente; porque se esses períodos passados constituem uma prova, como a posição atual do homem num mundo de sofrimentos o indica, foram infelizmente maculados de erros e de crimes, causa primeira das misérias e das expiações de hoje, representando para a alma evidente vantagem, por achar-se ela livre da visão de tão grande quantidade de faltas, bem como dos remorsos deveras acabrunhantes que daí se originarão. Não a obrigando a um arrependimento formal senão em relação às culpas da vida atual, assim se compadecendo de sua fraqueza, Deus realmente lhe concede uma grande graça.
“Enfim, segundo essa mesma maneira de considerar o mistério da vida, as necessidades de toda natureza a que estamos submetidos neste mundo e que, desde o nosso nascimento determinam, por uma sentença por assim dizer fatal, a forma de nossa existência no presente período, constituem um último benefício, tão sensível quanto os dois outros; porque, em definitivo, são essas necessidades que dão à nossa vida o caráter que melhor convém às nossas expiações e às nossas provas e, conseguintemente, ao nosso desenvolvimento moral; e são ainda essas mesmas necessidades, seja de nossa organização física, seja das circunstâncias exteriores, em cujo meio somos colocados que, arrastando-nos forçosamente ao termo da morte, conduzem-nos por isso mesmo à nossa suprema libertação. Em resumo, como dizem as tríades em sua enérgica concisão, aí está todo o conjunto e as três calamidades primitivas, bem como os três meios eficazes de Deus em abred.
“Entretanto, mediante qual conduta a alma realmente se eleva nesta vida e merece alcançar, após a morte, um modo superior de existência? A resposta que dá o Cristianismo a essa questão fundamental é de todos conhecida: é sob a condição de destruir em si o egoísmo e o orgulho, de desenvolver, na intimidade de sua substância, os valores da humildade e da caridade, únicos eficazes e meritórios perante Deus: Bem-aventurados os brandos, diz o Evangelho; bem-aventurados os humildes! A resposta do druidismo é bem diversa e contrasta claramente com esta última.
Segundo suas lições, a alma se eleva na escala das existências com vistas a fortificar a sua personalidade, através do trabalho sobre si mesma, resultado que naturalmente obtém pelo desenvolvimento da força do caráter, aliada ao desenvolvimento do saber. É o que exprime a vigésima quinta tríade, que declara que a alma recai na necessidade de transmigrações, isto é, nas vidas confusas e mortais, não só por alimentar as más paixões, como, também, pelo hábito da tibieza no cumprimento das ações justas e pela falta de firmeza no apego ao que prescreve a consciência; numa palavra, pela fraqueza de caráter. E, além dessa falta de virtude moral, a alma é ainda retida em seu progresso em direção ao céu pela falta de aperfeiçoamento do Espírito. A iluminação intelectual, necessária para a plenitude da felicidade, não se opera na alma bem-aventurada simplesmente por uma irradiação graciosa do Alto; e não se produz na vida celeste a não ser que a própria alma tenha se esforçado, desde esta vida, para adquiri-la. A tríade também não fala apenas da falta de saber, mas da falta de esforços para saber, o que, no fundo, como para a virtude precedente, é um preceito de atividade e de movimento.
“Em verdade, nas tríades seguintes, a caridade é recomendada no mesmo título que a ciência e a força moral; mas, ainda aqui, como no que toca à natureza divina, a influência do Cristianismo é sensível. É a ele, e não à forte, mas dura religião de nossos antepassados, que pertence a predicação e a entronização no mundo da lei da caridade em Deus e no homem; e se essa lei brilha nas tríades, é por efeito de uma aliança com o Evangelho ou, melhor dizendo, de um feliz aperfeiçoamento da teologia dos druidas pela ação da dos apóstolos, e não por uma tradição primitiva.
Arrebatemos esse raio divino e teremos, em sua rude grandeza, a moral da Gália, moral que pôde produzir, na ordem do heroísmo e da ciência, poderosas personalidades, mas que não as soube unir entre si nem à multidão dos humildes 28.”