A maioria dos corpos simples são chamados ponderáveis, porque lhes podemos medir o peso, e este está na razão da soma das moléculas contidas num dado volume. Outros são ditos imponderáveis, porque para nós não têm peso e, seja qual for a quantidade em que se acumulem em outro corpo, não lhe aumentam o peso. Tais são: o calórico5, a luz, a eletricidade, o fluido magnético ou do ímã; este último não passa de uma variedade da eletricidade. Conquanto imponderáveis, nem por isso esses fluidos deixam de ter um grande poder. O calórico divide os corpos mais duros, os reduz a vapor e dá aos líquidos evaporados uma força de expansão irresistível. O choque elétrico quebra árvores e pedras, curva barras de ferro, funde os metais, atira ao longe enormes massas. O magnetismo dá ao ferro um poder de atração capaz de sustentar pesos consideráveis. A luz não possui esse gênero de força, mas exerce uma ação química sobre a maioria dos corpos; sob sua influência operam-se incessantemente composições e decomposições. Sem a luz, os vegetais e os animais se estiolam, os frutos não têm sabor nem coloração.
III Todos os corpos da Natureza, minerais, vegetais, animais, animados ou inanimados, sólidos, líquidos ou gasosos, são, pois, formados dos mesmos elementos, combinados de maneira a produzir a infinita variedade dos diferentes corpos. Hoje a Ciência vai mais longe; suas investigações pouco a pouco a conduzem à grande lei da unidade. Agora é geralmente admitido que os corpos reputados simples não passam de modificações, de transformações de um elemento único, princípio universal designado sob os nomes de éter, fluido cósmico ou fluido universal, de tal sorte que, segundo o modo de agregação das moléculas desse fluido, e sob a influência de circunstâncias particulares, adquire propriedades especiais, que constituem os corpos simples; estes, combinados entre si em diversas proporções, formam, como dissemos, a inumerável variedade de corpos compostos. Segundo esta opinião, o calórico, a luz, a eletricidade e o magnetismo também não passariam de modificações do fluido primitivo universal. Assim esse fluido, que com toda probabilidade é imponderável, seria ao mesmo tempo o princípio dos fluidos imponderáveis e dos corpos ponderáveis.
A Química nos faz penetrar na constituição íntima dos corpos; mas, experimentalmente falando, não vai além dos corpos considerados simples; seus meios de análise são impotentes para isolar o elemento primitivo e determinar a sua essência. Ora, entre esse elemento em sua pureza absoluta e o ponto onde pára as investigações da Ciência, o intervalo é imenso. Raciocinando por analogia, chega-se à conclusão de que entre esses dois pontos extremos, esse fluido deve sofrer modificações que escapam aos nossos instrumentos e aos nossos materiais. É nesse campo novo, até aqui vedado à exploração, que vamos tentar penetrar.
IV Até agora só se tinham idéias muito incompletas sobre o mundo espiritual ou invisível. Imaginavam-se os Espíritos como seres fora da Humanidade; os anjos também eram criaturas à parte, de uma natureza mais perfeita. Quanto ao estado das almas depois da morte, os conhecimentos não eram mais positivos. A opinião mais geral fazia deles seres abstratos, dispersos na imensidade e não tendo mais relações com os vivos, a não ser que estivessem, segundo a doutrina da Igreja, nas beatitudes do céu ou nas trevas do inferno. Além disso, como as observações da Ciência não vão além da matéria tangível, resulta um abismo entre o mundo corporal e o mundo espiritual, que parecia excluir toda comparação.
É este abismo que novas observações e o estudo de fenômenos ainda pouco conhecidos vêm encher, ao menos em parte.
O Espiritismo nos ensina, de saída, que os Espíritos são as almas dos homens que viveram na Terra; que progridem incessantemente, e que os anjos são essas mesmas almas ou Espíritos chegados a um estado de perfeição que os aproxima da Divindade.
Em segundo lugar, ensina-nos que as almas passam alternadamente do estado de encarnação ao de erraticidade; que neste último estado elas constituem a população invisível do globo, ao qual ficam ligadas até que tenham adquirido o desenvolvimento intelectual e moral que comporta a natureza deste globo, depois do que o deixam, passando a um mundo mais adiantado.
Pela morte do corpo, a Humanidade corporal fornece almas ou Espíritos ao mundo espiritual; pelos nascimentos, o mundo espiritual alimenta o mundo corporal; há, pois, transmutação incessante de um no outro. Esta relação constante os torna solidários, pois são os mesmos seres que entram no nosso mundo e que dele saem alternadamente. Eis um primeiro traço de união, um ponto de contato, que já diminui a distância que parecia separar o mundo visível do mundo invisível.
A natureza íntima da alma, isto é, do princípio inteligente, fonte do pensamento, escapa completamente às nossas investigações; mas agora se sabe que a alma é revestida de um envoltório ou corpo fluídico, que dela faz, depois da morte do corpo material, como antes, um ser distinto, circunscrito e individual. A alma é o princípio espiritual considerado isoladamente; é a força atuante e pensante, que não podemos conceber isolada da matéria senão como uma abstração. Revestida de seu envoltório fluídico, ou perispírito, a alma constitui o ser chamado Espírito, como quando está revestida do envoltório corporal, constitui o homem. Ora, se bem que no estado de Espírito goze de propriedades e de faculdades especiais, não deixou de pertencer à Humanidade. Os Espíritos são, pois, seres semelhantes a nós, já que cada um de nós se torna Espírito após a morte do corpo, e cada Espírito se torna homem pelo nascimento.
Esse envoltório não é a alma, pois não pensa: é apenas uma vestimenta; sem a alma, o perispírito, assim como o corpo, é uma matéria inerte privada de vida e de sensações. Dizemos matéria, porque, com efeito, o perispírito, embora de natureza etérea e sutil, não deixa de ser matéria, como os fluidos imponderáveis e, além disso, matéria da mesma natureza e da mesma origem que a mais grosseira matéria tangível, como logo veremos.
A alma não reveste o perispírito apenas no estado de Espírito; é inseparável desse envoltório, que a segue na encarnação, como na erraticidade. Na encarnação, é o laço que a une ao envoltório corporal, o intermediário com cujo auxílio age sobre os órgãos e percebe as sensações das coisas exteriores. Durante a vida, o fluido perispiritual identifica-se com o corpo, penetrando todas as suas partes; com a morte, dele se desprende; privado da vida o corpo se dissolve, mas o perispírito, sempre unido à alma, isto é, ao princípio vivificante, não perece; apenas a alma, em vez de dois envoltórios, conserva apenas um: o mais leve, o que está mais em harmonia com o seu estado espiritual.
Embora esses princípios sejam elementares para os espíritas, era útil lembrá-los para a compreensão das explicações subseqüentes e a ligação das idéias.
V Algumas pessoas contestaram a utilidade do envoltório perispiritual da alma e, em conseqüência, a sua existência. A alma, dizem, não precisa de intermediário para agir sobre o corpo; e, uma vez separada do corpo, é um acessório supérfluo.
A isto respondemos, primeiro, que o perispírito não é uma criação imaginária, uma hipótese inventada para chegar a uma solução; sua existência é um fato constatado pela observação.
Quanto à sua utilidade, quer durante a vida, quer depois da morte, é preciso admitir que, desde que existe, é que serve para alguma coisa. Os que lhe contestam a utilidade são como um indivíduo que, não compreendendo as funções de certas engrenagens num mecanismo, concluíssem que só servem para complicar desnecessariamente a máquina. Não vê que se a menor peça fosse suprimida, tudo seria desorganizado. Quantas coisas, no grande mecanismo da Natureza, parecem inúteis aos olhos do ignorante e, mesmo, de certos cientistas, que de boa-fé acreditam que se tivessem sido encarregados da construção do Universo, o teriam feito melhor!
O perispírito é uma das engrenagens mais importantes da economia. A Ciência o observou em alguns de seus efeitos e, sucessivamente, tem sido designado sob o nome de fluido vital, fluido ou influxo nervoso, fluido magnético, eletricidade animal, etc., sem se dar conta precisa de sua natureza, de suas propriedades e, ainda menos, de sua origem. Como envoltório do Espírito após a morte, foi suspeitado desde a mais alta antiguidade.
Todas as teogonias atribuem aos seres do mundo invisível um corpo fluídico. São Paulo diz em termos precisos que renascemos com um corpo espiritual (1a epístola aos Coríntios, 15:35 a 44 e 50).
Dá-se o mesmo com todas as grandes verdades baseadas nas leis da Natureza, e das quais, em todas as épocas, os homens de gênio tiveram a intuição. É assim que, desde antes de nossa era, hábeis filósofos tinham suspeitado a redondeza da Terra e seu movimento de rotação, o que nada tira ao mérito de Copérnico e de Galileu, sendo mesmo de presumir-se que estes últimos hajam aproveitado as idéias de seus predecessores. Graças a seus trabalhos, o que não passava de uma teoria individual, de uma teoria incompleta e sem provas, desconhecida das massas, tornou-se uma verdade científica, prática e popular.