O mesmo concílio formula uma estranha proposição: “Nossa alma”, diz, “igualmente espiritual, é associada ao corpo de maneira a não formar com ele senão uma pessoa, e tal é, essencialmente, o seu destino”. Ora, se o destino essencial da alma é estar unida ao corpo, esta união constitui o seu estado normal, seu objetivo, o fim, visto que tal é o seu destino. Entretanto, a alma é imortal e o corpo não; sua união com o corpo só se realiza uma vez, segundo a Igreja, e ainda que durasse um século, nada seria em relação à eternidade. E sendo apenas de algumas horas para muitos, que utilidade teria para a alma uma união tão efêmera? Mas mesmo que essa união se prolongue tanto quanto se pode prolongar uma existência terrena, ainda assim se poderá afirmar que o seu destino é estar essencialmente ligada ao corpo? Não; essa união não passa, na realidade, de mero acidente, de um estágio na vida da alma, e nunca do seu estado essencial.
Se o destino essencial da alma é estar ligada a um corpo material; se, por sua natureza e segundo o fim providencial da sua criação, essa união é necessária às manifestações das suas faculdades, forçoso é concluir que a alma, sem o corpo, é um ser incompleto. Ora, para que a alma cumpra os seus desígnios, é preciso que, depois de deixar um corpo ela tome outro, o que nos conduz forçosamente à pluralidade das existências, ou, em outras palavras, à reencarnação, à perpetuidade. É realmente muito estranho que um concílio, tido por uma das luzes da Igreja, tenha a tal ponto identificado os seres espiritual e material, de modo a não poderem existir um sem o outro, visto que a condição essencial de sua criação é estarem unidos.