XV
"Sinto instintivamente respeito quando estou diante dele" - escreve Regina. "Ele é amoroso e amigo, mas sinto nele aquela austeridade comum às pessoas que se impõem pela autoridade moral, com a sua simples presença. Jamais fez qualquer brincadeira ou empregou qualquer expressão mais descontraída. Certa vez, 'reclamei' porque nem ele, nem nossos outros mentores se comunicavam com mais freqüência, com aquelas 'mensagens pessoais' de que tanto gostamos. E ele respondeu: - Já dissemos tudo o que precisava ser dito. Vocês todos têm conhecimento das suas próprias responsabilidades e já aprenderam que dificuldades e lutas são instrumentos de aprendizado evolutivo. Agora é trabalhar. Nosso tempo é escasso e precioso. Não podemos utilizá-lo em conversas meramente sociais. Há muito que fazer. Ficou a lição de seriedade e responsabilidade. Outra coisa: não é ele dado a elogios, nem mesmo a título de estímulo, como tantos gostam. Está sempre a lembrar que é uma alegria merecer a honra de servir ao Cristo. Ao encerrar, com êxito, uma tarefa particularmente difícil, costuma observar que os resultados não são nossos, dado que pertencem ao Cristo, que nos possibilita obtê-las. Em outra ocasião, observem que o trabalho que empreendeu poderia também ser feito sem o concurso do grupo de pessoas encarnadas. Só que demoraria um pouco mais. Todos sabem, contudo, que sua aparente severidade não é frieza, nem indiferença; muito pelo contrário, mas é tradução fiel em ação, da seriedade com a qual realiza suas tarefas, sempre com senso de responsabilidade. Por isso tudo, ninguém no grupo se sente encorajado a dirigir-lhe questões de natureza pessoal. Já se sabe em que tom ele responderia. Com a precisão de sua linguagem e sua característica bondade não devem os espíritos influenciar decisões que são da alçada de cada um, porque estariam, assim, interferindo com o livre-arbítrio pessoal alheio. 5. DESENROLA-SE O TRABALHO Terminadas suas breves recomendações - ele não é nada prolixo - retira-se suavemente. Regina experimenta apenas um ligeiro movimento do tronco para trás e, em seguida, para frente, ou seja, o mesmo balanço que experimentou quando ele se preparava para falar por seu intermédio. No momento seguinte, ela se encontra novamente 'dentro' do corpo físico. O mentor colca-se, então, à sua direita e ali permanece durante o desenrolar dos trabalhos da noite, sempre atento, vigilante, seguro, tranquilo. É chegado, então, o momento de começar a receber as entidades que vêm para tratamento. Faz-se uma pausa e Regina procura silenciar a mente, como se a esvaziasse de qualquer pensamento a fim de poder entregar-se ao trabalho. Normalmente, ela não percebe, visualmente, a entidade que se aproxima. Sente a presença de alguém, pelo que os médiuns costumam caracterizar como 'vibração'.. E começa novamente aquela sensação de que a mente está se levantando da cadeira da frente para ir sentar-se na fila de trás, a fim de dar lugar a alguém. Ao contrário da incorporação do mentor, que se processa com a maior suavidade, acompanhada de uma leve sensação de balanço e expansão, a manifestação de entidades desarmonizadas é rude e impactante, logo que se ligam a Regina, ou seja, quando suas auras entram em contato, ela experimenta um forte choque como se tivesse tocado um fio elétrico desencapado. Ela tem a impressão de que é esse choque que a retira bruscamente do corpo. Às vezes, já fora do corpo, sente dificuldades na garganta, como se alguém estivesse a remexer com ela ou como se estivesse engasgada. Certamente isto resulta das manipulações um tanto inábeis do manifestante nos centros nervosos que comandam a fala. Ocorre, a essa altura, certo baralhamento na sensação de presença no ambiente. Ela está e, ao mesmo tempo, sente não estar ali; o corpo físico, à curta distância, é seu; mas, naquele momento, ela não parece dominá-lo e controlá-lo. Está ligada a ele, sim, mas sem ter à sua disposição os comandos respectivos. Percebe que o corpo fala, gesticula, argumenta, enquanto ela é simples espectadora do que se passa. Sente-se independente, ou seja, é dona dos próprios pensamentos e de sua maneira de ser. Nada está alterado na sua personalidade e na sua maneira de considerar as coisas. Freqüentemente, discorda do que está sendo dito através de seu corpo, mas não consegue interferir. Se quiser gritar, por exemplo, ou dirigir-se ao doutrinador, como já experimentou certa vez, não o conseguirá. Do seu ponto estratégico, e perfeitamente lúcida, percebe o que se passa na reunião, tanto ostensiva como secretamente. Ou seja: nota alguns atentos e interessados no desenrolar da tarefa, os que estão contribuindo com a sua quota de amor fraterno no tratamento do espírito em desarmonia, ou os que estão impacientes ou 'desafinados', por qualquer motivo. Percebe ondas de energia irradiando-se do coração de alguns e que se dirigem ao seu corpo físico, 'onde' se encontra a entidade em tratamento. Sente, por outro lado, a repercussão dos males 'físicos' de que se queixa a entidade ou, mesmo quando ela não dá voz a essas queixas, embora sinta as dores correspondentes. É curioso que não consegue falar se o espírito manifestante não tem língua, por ter sido cortada em alguma encarnação passada; gagueja, se o espírito teve esse problema; parece embriagada ou drogada, se é esse o caso com o espírito; e assim por diante. Experimenta não apenas o desconforto físico das mazelas 'orgânicas', mas, também, estados de aflição, angústia, desespero, revolta ou ansiedade. É difícil livrar-se dessas verdadeiras 'contaminações' físicas e psíquicas, dado que as sensações fluem de um perispírito para outro, através das 'tomadas' que ligam as auras. As vezes, ela percebe quadros vivos e cenas de intensa dramaticidade como se estivesse assistindo a um filme, enquanto a entidade fala pelo seu corpo, que está ali como um boneco de marionete sendo manipulado por outra inteligência que não a sua, através de cordões que lhe são invisíveis. Em se tratando de espíritos profundamente desarmonizados, raramente tais cenas são tranqüilas. Ao contrário, algumas são realmente dolorosas e até chocantes: assassinatos brutais, execuções frias, torturas, gente acorrentada, incêndios, um horror! Tudo como se estivesse acontecendo ali, naquele mesmo momento, ao vivo, vê a entidade em pranto e percebe que as lágrimas estão escorrendo pelas suas próprias faces, naquele corpo que, ao mesmo tempo, é e não é seu. E acaba se comovendo com essas aflições. É certo que, com seu aguçado estado de acuidade enquanto desdobrada - percebe até sentimentos e intenções dos circunstantes - é capaz de acompanhar, em todas as suas minúcias, o desenrolar do diálogo entre o espírito manifestante e o doutrinador. Curiosamente, no entanto, ao regressar ao corpo físico e retomar seus controles, tem apenas lembranças fragmentárias do que se passou. Só mais tarde, à medida que os companheiros comentam a reunião e repassam um ao outro detalhe mais relevante, ela começa a reconstituir alguma coisa a respeito. Mas é como se procurasse se recordar de um sonho do qual acaba de despertar, juntando pontas soltas e costurando os pedaços uns nos outros com a intenção de obter uma noção mínima do que se passou. É que as idéias, conceitos e lembranças que constituem o diálogo, não se originaram na sua mente e nem mesmo 'passaram' por ela, de vez que ela continuou a pensar e observar com inteira autonomia, como vimos, e em perfeita consciência da sua posição de dona do corpo, mas, parcial e temporariamente desligada dele. Não sei se, caso feita uma regressão da memória com ela, seria possível reconstituir o diálogo entre o espírito e o doutrinador. Tenho minhas dúvidas de que isto fosse possível, porque esse diálogo não está na sua memória, e sim, na do espírito. Seria difícil registrar toda a conversa e as emoções alheias, ao mesmo tempo em que pensa e observa com a sua própria mente. Nunca consegue, assim, reconstituir toda a comunicação. De volta à casa, após encerrado o trabalho, procura não se fixar demais, mesmo nos aspectos mais relevantes que, porventura, tenha guardado na memória. 6. INTERINDEPENDÊNCIA DAS MENTES Ao abordar o problema da autonomia das duas memórias, pareceu-me correto que assim fosse, em princípio, explicada a ausência de lembrança por parte de Regina, que somente retinha episódios isolados, fragmentários e mais marcantes, mas eu ainda não estava plenamente satisfeito com a explicação que, repito, parecia acertada, porém, incompleta. Pois não deve a comunicação passar, necessariamente, pela mente do médium antes de se 'materializar' na palavra falada ou escrita - perguntava-me. Por que razão não ficava lá retida? Ocorreu-me, então, que isso é verdadeiro, sim, mas com uma ressalva importante: o que passa pela mente do médium não é exatamente o que o espírito pensa - não são as memórias que se fundem uma na outra - mas os impulsos do comunicante, para que ele possa ter à sua disposição os comandos psicomotores de que necessita para movimentar os centros adequados no corpo do médium. A entidade desencarnada não manipula, à sua vontade e arbítrio, a memória do médium, que tem a sua inviolabilidade preservada. Ela não coloca ou retira nada de lá. E nem o médium pode invadir ou interferir na mente da entidade que, por seu intermédio, se comunica. Tanto que não lhe é dado conhecer o que o comunicante vai dizer ou fazer a seguir. Se este interromper a psicografia de um texto ou uma frase que está dizendo, o médium não sabe o que virá a seguir. Isto demonstra que o médium não está participando do processo de elaboração da comunicação, apenas cede o seu instrumento para que ela se veicule.
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Nome do Capítulo Psicofonia