“Eu vos poderia citar fatos mais surpreendentes que o do Sr. Bach. Mas por hoje basta. Hesito mesmo em vos enviar estas notas, escritas ao sabor da pena.
“Há vinte anos que magnetizo, mas ocultei, mesmo aos meus melhores amigos, o resultado de minhas descobertas. É tão fácil tachar um homem de loucura! Há tanta gente interessada em pôr a luz debaixo do alqueire! E, acima de tudo, forçoso é dizer, há tantos charlatães que abusaram do magnetismo que seria necessária uma coragem sobre-humana para declarar que dele se ocupa. Seria melhor proclamar que se assassinou pai e mãe do que confessar que se acredita no magnetismo.
“Regra geral, entretanto: não creiais nunca, jamais! em experiências públicas, nos falsos sonâmbulos, que dão consultas mediante dinheiro, e oráculos como as sibilas antigas, que agem e falam à menor ordem e a qualquer hora, diante de um público numeroso, como um autômato habilmente fabricado. É charlatanismo! Nada é mais caprichoso, teimoso, volúvel, birrento e rancoroso que um sonâmbulo. Uma ninharia lhe paralisa as faculdades de segunda vista; uma bagatela o faz mentir por malícia; um nada o perturba e o faz mudar de rumo, e isto se compreende.
Há algo mais susceptível que uma corrente elétrica?
“Eu me afastei de um hábil cientista, o Dr. E..., muito conhecido em Londres, com o qual iniciei minhas primeiras experiências magnéticas, justamente porque sempre considerei como grave falta o abuso do magnetismo. Empolgado pelos resultados miraculosos que obtínhamos, um dia ele quis enxertar o sistema frenológico no magnetismo. Pretendia que, tocando certas saliências da cabeça, o sonâmbulo apresentava a sensação da qual aquela saliência era sede. Tocando o local presumível do canto, o paciente cantava; o da gulodice, ele mastigava no vazio, dizendo que tal comida tinha este ou aquele sabor. E assim por diante.
“Considerei que era levar a experiência longe demais e, sobre um fato real – o sonambulismo – assentar uma ciência problemática: a frenologia. Eu queria ampliar o domínio das descobertas magnéticas, mas não abusar delas, como geralmente se faz.
“Tive a irreverência de declarar ao meu professor que ele se desviava e que eu defendia ser dever de todos quantos conhecem os fenômenos magnéticos se levantarem contra todas essas experiências, cujo único objetivo é satisfazer uma curiosidade ignorante, explorar algumas fraquezas humanas e não o de alcançar um resultado prático para a Humanidade, e útil a todos.
“Mas é mais difícil do que se pensa manter-se nesses limites honestos, quando se chegou a resultados maravilhosos. Os mais fortes magnetizadores se deixam arrastar e, fenômeno ainda mais maravilhoso, quando se chega a ponto de exigir sempre experiências públicas de seu paciente, este parece se perturbar, não tem mais esse imprevisto, essa lucidez, essa clarividência que o distinguiam; torna-se uma máquina automática, que responde sobre um tema dado e cujas faculdades se empobrecem até desaparecerem.
“Infelizmente, pessoas que não ousariam tentar uma simples experiência de física recreativa, que se confessam incapazes de executar o menor truque de prestidigitação, jamais hesitam, sem preparação e sem o menor estudo prévio, em fazer experiências magnéticas.
“Ah! se eu não temesse mergulhar os leitores do vosso Grand Journal num sono menos interessante, porém mais barulhento que o de meus sonâmbulos, eu vos entreteria em breve com fatos eminentemente curiosos... Mas antes é preciso saber que acolhida dareis a esta primeira carta; é o que sábado ficarei sabendo, ao rebentar o lacre de meu exemplar.
Bertellius