Capítulo 18
Pretendia vê-lo fazendo o bem que eu, homem ignorante, não soubera praticar. Frequentemente me assaltava o remorso pela extorsão que infligira a minha irmã; contudo, consolava-me com a ideia de que o neto do meu coração, de algum modo, gastaria o dinheiro que eu indebitamente aferrolhara, educando-se, como convinha, para benefício de todos… Seria o benfeitor dos pobres e dos doentes, espargiria sementes dadivosas onde minha existência inútil espalhara pedras e espinhos de insensatez. Meu neto seria belo, querido, respeitado… Enxugando as copiosas lágrimas, indagava em voz súplice, com a atenção presa a meus gestos: — Quem sabe se vós, mensageiros de Deus, poderíeis levar a meu neto a tremenda notícia dos males que me devoram? Não mereço o afastamento destas masmorras em que enlouqueci, mas ser-me-á consolo saber que André tem ciência dos meus padecimentos! Ah! Não mais valeram sinais do Assistente Calderaro para que me contivesse, esperando ainda mais. Meu peito como que rebentara numa torrente de pranto irreprimível. Ali, não me achava ante assembleias superiores, cujas emissões de energia me sustentassem até ao fim no combate educativo da autodisciplina, mas, diante dos deploráveis remanescentes das paixões terrestres. Lembrei-me do meu avô, acariciando-me os cabelos; recordei que meu genitor sempre aludia aos desejos do velho, com referência à minha preparação acadêmica…Pensei nos longos anos que o mísero teria gasto, ali, agarrado às ideias de posse financeira; compreendi a extensão de meu débito para com ele, relativamente ao diploma de médico que eu não soubera honrar no mundo… Dirigi súplice olhar a Calderaro, rogando-lhe me perdoasse… O Assistente sorriu e entendeu tudo. Quem terá perdido, de todo, a expressão infantil, se o próprio Cristo, Supremo Guia da Terra, abriu tenros braços, um dia, no berço da manjedoura? Tornando mentalmente a cenários da infância longínqua, senti-me novamente menino; venci de um salto o espaço que nos separava e ajoelhei-me aos pés do meu desventurado benfeitor, que me observava, agora, trêmulo e assustado. Cobri-lhe as mãos de beijos e, erguendo para ele os olhos lacrimosos, perguntei: — Vovô Cláudio, pois o senhor não me conhece mais? Impossível seria descrever o que se passou. Esqueci, por momentos, os estudos que me impusera a fazer; olvidei os quadros daquele ambiente, que provocavam curiosidade e pavor. Meu espírito respirava o reconhecimento sincero e o amor puro; e, enquanto as míseras entidades emuradas na usura gritavam, revoltadas, umas, e riam outras à sorrelfa, incapazes de compreender a cena improvisada, eu, amparado por Calderaro, que também enxugava lágrimas discretas, diante da comoção que me assaltara, sustentei meu avô nos braços, como se transportara, louco de alegria, precioso fardo que me era doce e leve ao coração.
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Nome do Capítulo Velha afeição